Os Livros Clássicos Mais Abandonados

Peguei uma lista dos 100 melhores livros nacionais e outra dos 100 livros essenciais da literatura mundial e usei os dados do Skoob para verificar quais deles foram mais abandonados durante a leitura.

Vários livros são muito pouco lidos, o que certamente pesa mais na hora de ter um abandono de leitura. De qualquer forma, o resultado que encontrei foi esse, sendo o número referente à porcentagem de abandono:

LITERATURA NACIONAL

1. Os sertões, Euclides da Cunha 20,3

2. Romance da Pedra do Reino, Ariano Suassuna 17,8

3. Minha formação, Joaquim Nabuco 15,9

4. Cartas chilenas, Tomás Antônio Gonzaga 15,9

5. Viva o povo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro 13,9

6. O ateneu, Raul Pompéia 13

7. Quarup, Antonio Callado 12,8

8. Casa grande e senzala, Gilberto Freyre 12,7

9. Sermões, Antonio Vieira 12,1

10. Broquéis, Cruz e Sousa 10,4

LITERATURA MUNDIAL

1. Ulysses, James Joyce 32,2

2. Finnegans Wake, James Joyce 27,1

3. O Homem sem Qualidades, Robert Musil 17,6

4. Decameron, Boccaccio 17,1

5. Os Cantos, Ezra Pound 16,7

6. A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós 16,5

7. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust 14,9

8. Fausto, Goethe 14,2

9. A Divina Comédia, Dante Alighieri 14,1

10. Vida e Opiniões do Cavaleiro Tristram Shandy, Laurence Sterne 13,3
(esse último com míseras 18 leituras+abandonos).

A credibilidade acima da metodologia

Martim W. Bauer e Georg Gaskell são os autores de uma publicação chamada “Pesquisa Qualitativa com Texto, Imagem e Som – Um Manual Prático”, cuja versão para o português foi feita por Pedrinho A. Guareschi. Nela se encontra o capítulo “Qualidade, Quantidade e Interesses do Conhecimento – Evitando Confusões”. Esse capítulo tem a proposta de estudar as técnicas e metodologias utilizadas no delineamento da pesquisa científica, na geração e na análise de dados sociais, com todas as características envolvidas nos diferentes casos, como os meios de representação, a retórica, e os interesses do conhecimento. Tal estudo tem como objeto central a discussão entre pesquisas quantitativas e pesquisas qualitativas, com todas as especificidades que resultam dessa dicotomia.

Bauer e Gaskell procuram, antes de tudo, fazer uma espécie de revisão teórica dos principais estudos que tratam das pesquisas quantitativas e qualitativas. Desse modo, procuram mostrar os diferentes pontos de vistas e argumentos em ambos os casos, com alguma referência a períodos históricos, cuidando também de caracterizá-los da melhor maneira possível para que então possa ser mais fácil fazer uma diferenciação entre elas e mesmo encontrar semelhanças. Isso porque, toda a argumentação dos autores dá a entender que é inútil a divisão entre essas duas metodologias e técnicas da pesquisa. Para melhor esclarecer as diferenças e semelhanças, os autores fazem uso de algumas tabelas que seguem os preceitos de outros autores. Feita essa análise primária do campo de interesse, eles partem então para defender o seu próprio ponto de vista, contrapondo com alguns autores e concordando com outros. Essa visão de Bauer e Gaskell se baseia bastante na própria interpretação dos autores, embora os argumentos ganhem em credibilidade com a citação de autores que corroboram com as suas opiniões, principalmente Habermas.

Os autores parecem corretos ao tratar da inutilidade da divisão entre as duas metodologias de pesquisa social. A pesquisa quantitativa tem o seu valor garantido pela legitimidade que em geral os números dão aos fatos. Embora os dados possam ser distorcidos de alguma maneira para atender a determinados interesses, parece certo que a simples divulgação de dados de uma pesquisa quantitativa são referenciais e muitas vezes usados como argumentos críticos para conseguir determinado fim. Mas esse uso dos dados quantitativos como argumentação já é uma prova de que não é possível uma pesquisa quantitativa sem a interpretação devida dos fatos – em outras palavras, sem a pesquisa qualitativa. O bom uso de pesquisas que envolvem dados numéricos depende de uma manipulação correta dos mesmos, a fim de dar o sentido devido ao fim que se propõe. A parte “qualitativa” da pesquisa quantitativa vai além da interpretação crítica dos fatos que é feita antes de iniciar a pesquisa; é uma característica que acompanha todo o processo de pesquisa e que continua no momento de sua divulgação e a conseqüente recepção por parte do público. O perigo é ser levado a crer que a pesquisa quantitativa é aquela que deixa de lado a simples retórica para dar a devida apuração dos fatos. Como dito, a divulgação dos dados de uma pesquisa quantitativa não são inquestionáveis. Por sua vez, a pesquisa qualitativa, que se preocupa com um aprofundamento maior e cujos dados são em geral textos, ao invés de números, poderão ter a sua credibilidade aumentada se em algum momento fizerem uso de um dado quantitativo na sua argumentação. Assim sendo, as duas metodologias diferentes estão intimamente ligadas, e o uso maior de uma delas é apenas um método de pesquisa que não exclui a outra, e que pode muito bem se servir dela para melhorar e tornar mais legítimos os resultados.

O reconhecimento de que a retórica é parte integrante da pesquisa social, e de maneira indissociável, como nos mostram Bauer e Gaskell, é importante para melhor compreendermos as técnicas usadas para a realização dessas pesquisas, e a maneira como é possível aperfeiçoá-las, de modo a existir um certo “distanciamento”. Não se trata de criar pesquisas acríticas, mas que, nos termos usados pelos autores, reduzam “o ethos e o pathos” no processo de comunicação dessas informações. Importante também é a questão do “interesse” existente por trás das pesquisas sociais. Os autores se embasam bastante em Habermas, e citam as três diferenciações dos interesses que ele faz. De uma forma ou de outra, parece correto que o interesse é uma condição necessária para possibilitar a prática da pesquisa. O cuidado está, tanto na pesquisa quantitativa como qualitativa, em não fazer com que a motivação inicial da pesquisa se sobreponha aos resultados alçançados de modo a moldar os efeitos de acordo com esses interesses. O cuidado com a credibilidade, posta a prova através da própria divulgação dos dados quantitativos ou qualitativos, torna melhor o resultado da pesquisa social do que a metodologia empregada.

Não se pode falar que a pesquisa quantitativa se preocupa apenas com o controle dos dados, tendo pouca preocupação com o entendimento dos mesmos. A simples coleta de dados numéricos, em si, já supõe uma preocupação “crítica” anterior. E isso também é condicionado a uma aproximação do ambiente histórico e social em que a pesquisa será feita. Outro dos argumentos, dessa vez dos militantes qualitativos, citados pelos autores e que parece equivocado é de que a pesquisa qualitativa dá mais voz às pessoas, tornando-as mais do que simples números. Essa suposta mecanização da pesquisa quantitativa, é apenas uma aparência que resulta da própria estatístíca e da diferenciação de metódos na coleta e na divulgação dos dados. Textos tendem a ser mais próximos das pessoas do que números, mas não é possível generalizar um ou outro caso, pois como visto, as duas metodologias acabam se complementando.

Bauer e Gaskell nos lembram da importância da metodologia de acordo com o público que espera se alcançar. Dados quantitativos podem ser importantes para determinados segmentos, mas se a pesquisa privilegiar dados qualitativos, os efeitos podem não ser os mesmos. E vice-versa. Percebe-se então que a escolha da metodologia a ser empregada na pesquisa deve levar em conta a recepção que se esperava na divulgação dos resultados. Caso não exista diferenciação significativa para o público receptor entre dados quantitativos ou qualitativos, a escolha recai sobre o pesquisador, que pode muito bem mesclar as duas coisas, ainda que dando mais espaço para um do que outro, mas com uma dosagem que consiga atender os “interesses” que possui e que satisfaçam a crítica e a motivação inicial que o levaram até aquela pesquisa.

A busca pelo logos da pesquisa, mesmo que não seja um ideal totalmente alcancável, deve fazer com que ambas as metodologias se dispam de possíveis preconceitos, também de métodos, para criar uma reflexão que vá além dos interesses que por vezes distorcem dados quantitativos ou qualitativos. Dessa forma, e também não crendo na imparcialidade total das pesquisas já realizadas, será possível evitar mentiras repetidas até virar verdade, e enfim, fazer pesquisa científica social.

A Fera e a Sociedade

Do lado de fora, era possível ouvir o animal. Motivo de apreensão. Caso escapasse, comprovaríamos se realmente a sua mordida alcança 1,5 tonelada de pressão. Seria o mesmo que encostar uma dentadura afiada no braço e empilhar sobre ela vários sacos cheios de cimento. O domador abre a jaula. A platéia em suspense, como se estivesse torcendo pela morte de um toureiro. Em um instante, a fera está solta. E corre na nossa direção. Não conseguimos mais nos mexer.

Fera?

Temos na nossa frente uma filhote de pitbull. Corre pra lá e pra cá, satisfeita com a inesperada liberdade. Percebe a nossa presença e começa a cheirar a nossa calça e brincar com nosso sapato, como um cachorro normal. E ao menor sinal do adestrador Marcelo Carneiro, a filhote se aquieta e trata de obedecer ao seu comando. “Essa ainda é pequena, mas quanto mais velho, mais fácil é pra obedecer”. Marcelo tenta passar ao pitbull noções de educação e socialização, através de técnicas de adestramento. “Não há um treinamento específico para a raça pitbull, mas ele pode ser direcionado”. Para ele, antes de tudo o animal precisa de educação.

Ele também não ignora a opinião que a sociedade costuma ter em relação ao pitbull. As notícias de pessoas que sofreram ataques de cachorros dessa raça aparecem freqüentemente nas páginas dos jornais, causando horror e indignação em muitas pessoas. Em Juliana Mendes da Silva, por exemplo. “Os pitbulls não passam confiança e não são dóceis. Parece que você está criando um galo de briga, e não o melhor amigo do homem“.

Então será que é uma coisa da natureza do animal mesmo? Marcelo diz que pode haver alguma causa específica, como um mal cruzamento. E  a raça pitbull foi desenvolvida pra briga. Só que mesmo assim o cão não se torna violento se tiver o acompanhamento certo. O problema é quem cria apenas pra deixar acorrentado. Já Juliana, acha que vai tanto da natureza como do dono. “Tem gente que se porta como se fosse o próprio cachorro”.

Em Belo Horizonte, os cães da raça pitbull passaram a receber um chip. Com isso, espera-se que seus donos possam ser identificados caso ocorra um ataque. Marcelo: “Excelente. Claro que não basta apenas ter um chip. Mas vai ajudar na identificação”. Juliana: “Ridículo. O dono vai ser encontrado por causa do chip, mas e a vida que foi tirada em um ataque não vai ser devolvida”.

O pitbull, a exemplo de outro animal, não pode ir contra o seu instinto. Para Marcelo, ele pode ser usado a seu favor, como cão de guarda, por exemplo. O que não significa um cachorro violento. “Cão de guarda é aquele que distingue bem as situações. Distingue as crianças, distingue quando alguém faz um movimento brusco”.

Com 90 dias, os pitbulls já receberam as vacinas devidas. Nesse período em que ainda é pequeno, as informações e os exemplos que recebem são fundamentais para desenvolver o comportamento do animal pelo resto da vida. Por isso Marcelo julga tão importante o acompanhamento apropriado para o pitbull. Isso implica em bastante tempo e dedicação. A recompensa seria se comunicar melhor com o animal, e torná-lo sociável como um outro cão qualquer. Mas Juliana não acredita em nada disso. “A agressividade deles não está apenas na criação ou na falta de carinho”.

Não significa dizer que ele será o cão ideal para uma família. Cada família em geral possui características próprias. “O ideal seria fazer uma seleção da raça de cachorro ideal para aquele grupo de pessoas”. Há muitas pessoas que escolhem ter um pitbull apenas pelo apelo que a mídia traz. Mas apesar disso, será que haveria algum problema em recomendar o pitbull a alguém? “Eu recomendaria, desde que a pessoa tenha condições psicológicas e que se preocupe em cuidar e educar o cachorro”.

Caso contrário, será um revólver na mão de um assassino.

 

Loucura, Loucura

Hospital  ainda isola os indesejáveis

– O que é isso??? O que é isso???

É um homem quem diz. Mas não prestamos muita atenção. Ele está deitado numa cama típica de hospital. Se mexe de um lado para o outro, tentando se levantar e não consegue. Está amarrado. Faz perguntas e nos observa de olhos virados. Aquele homem é um inconveniente da sociedade. Está em crise de abstinência, e foi preciso medicá-lo e reduzir seus movimentos. Algumas pessoas inconvenientes conseguem ser inconvenientes inclusive numa clínica psquiátrica. Passemos adiante.

O Hospital de Neuropsiquiatria xxx tem 35 anos, e os últimos tempos têm sido uma loucura. Conta com 450 leitos que aceitam todo o tipo de homens indesejáveis, desde que voluntariamente. Isso inclui drogados e alcoólatras, que possuem 350 camas. Há uma ala especial para que não perturbem a sociedade. Nas palavras de quem trabalha lá, é a parte mais pacata do Hospital. Os viciados podem até relaxar numa área destinada ao consumo do tabaco – uma droga que não diz respeito ao Hospital.

Os outros 100 leitos são para os doentes mentais, que ficam separados dos outros. São pessoas com as mais diversas enfermidades psicológicas convivendo no mesmo lugar. O hospital aceita maníacos, depressivos, esquizofrênicos, psicóticos, suicidas em potencial, e até mesmo obesos. Somos alertados de que essa parte do Hospital não é muito agradável para se visitar. As pessoas vêm cumprimentar você. As pessoas querem atenção. E isso é constrangedor.

*

Michel Foucault estudou a loucura na Idade Clássica e descobriu que os primeiros loucos a serem isolados da sociedade foram os árabes, no século VII. Quando eles ocuparam a Espanha, séculos mais tarde, o costume se espalhou pela Europa. Mas esses “hospícios” não recuperavam os internos. A intenção era apenas isolá-los das pessoas normais.  O tratamento aos loucos em geral era pior do que aos prisioneiros. Durante a Revolução Francesa, o alienista Philippe Pinel assumiu uma dessas casas, e decidiu acabar com os costumeiros maus-tratos. Começou a tratar os loucos como doentes, e passou a estudar e classificar seus problemas mentais. E formaram-se assim os primeiros “manicômios”.

No Brasil, começou-se a aceitar todo o tipo de indesejáveis nos manicômios, e não apenas os loucos. A exemplo do que acontecia nos primeiros hospícios, os pacientes ficavam ali pra sempre. Em outras palavras, eles não se recuperavam. O Hospital xxx age de forma diversa. Ainda que as enfermeiras afirmem que “transtorno mental não tem cura”, o paciente pode sair de lá depois de 80 dias. Só que alguns loucos retornam. Contraem o que chamam de “hospitalismo”. Não vivem mais sem o hospital. As enfermeiras garantem que há “elevado índice de recuperação” no Hospital, embora só se tenha certeza do índice de altas.

*

Os internos fazem suas atividades diárias numa área de 110 mil m². Pela manhã, os viciados fazem a oração da serenidade, admitindo a impotência diante da droga. Depois cantam o Hino Nacional. São eles mesmos os responsáveis pela higiene e pelas atividades cotidianas. Os pacientes formam pequenos grupos e se revezam para cuidar do varal, do corredor, do banheiro, etc. A intenção do Hospital é fazer com que larguem o vício, mas sem sempre é possível. Às vezes é a própria visita que traz drogas escondidas. Para evitar isso, as roupas dos pacientes são revistadas quando eles tomam banho. Alguns pacientes recebem alta e voltam na semana seguinte, com medo dos traficantes.

Para os loucos, as melhores atividades são as festas de aniversário, onde eles podem dançar à vontade, sem se preocupar com o que os outros irão pensar. Também existem gincanas, filmes e atividades culturais. Há uma sala com uma televisão e uma placa alertando que não se deve assistir durante a hora do almoço e após a novela das oito. E dessa forma os pacientes tentam suavizar a sua estadia, em meio a uma ou outra visita familiar.

Mas só essas diversões não bastam quando se é louco. É preciso mais, é preciso conversar sempre que puder, e cumprimentar todas as pessoas, mesmo que elas se recusem. É preciso puxar assunto com qualquer pessoa diferente que aparecer pelos corredores. Falar que hoje à noite voltaremos pra casa, mesmo que seja o nosso primeiro dia. Convidar as pessoas a visitar a nossa família, ainda que não as conheçamos. Dormir no primeiro lugar que encostarmos. Andar com o nariz sujo. Murmurar coisas que ninguém entende, reclamar que não estão tendo mais tantas danças como antigamente. E ouvir das enfermeiras apenas um sorriso de complacência. Afinal, não tem cura. Basta que se diga um “aham”, um “tá bom”, e o louco pára de perturbar as 170 pessoas que trabalham no Hospital. É bom não contrariar, afinal. São avestruzes, que mexem a boca para mostrar que estão falando, mas ninguém ouve som algum, ninguém sabe o que querem realmente, e ninguém quer realmente saber.

*

Em 2001 foi aprovado o projeto de lei que propõe a extinção gradual dos manicômios, e a substituição por outros mecanismos de assistência. No Hospital xxx, houve a diminuição do número de leitos. E o que se critica por lá é que não há realmente uma rede de ajuda para solucionar o problema – a psiquiatria é considerada por eles mesmos como “o patinho feio da Saúde”.  O Conselho Federal de Psicologia apresenta dados mostrando que há ao menos 60 mil pessoas internadas em quase 300 manicômios pelo Brasil. A intenção é desinstitucionalizar a loucura, dividindo o problema entre Estado e sociedade. E invocar os direitos humanos para tirá-los do cárcere privado. Enquanto o processo da Reforma Psiquiátrica não se conclui, a sociedade pode dormir tranqüila, sabendo que os indesejáveis estão devidamente isolados do nosso convívio.

Henrique Fendrich

Tezza comenta sobre a crônica

Durante o último ano de faculdade, realizei uma pequena entrevista, via-email, com o escritor Cristóvão Tezza, que há pouco tempo havia assumido o “cargo” de cronista nas páginas da Gazeta do Povo. Eu estava fazendo a minha monografia sobre a presença de notícias e do jornal nas primeiras crônicas de Rubem Braga e devia fazer um estudo de caso que auxiliasse nas discussões. A entrevista era apenas uma parte do estudo, que se concentrou mais nas próprias crônicas e seus aspectos temáticos.

Como a minha cabeça estava totalmente tomada pela leitura de críticos literários e jornalísticos, talvez o objetivo de algumas perguntas não fique tão claro para quem lê. No entanto, elas já são capazes de revelar aspectos interessantes da relação que Tezza mantinha com o gênero da crônica em 2008.

O estudo de caso você encontra aqui e a entrevista segue abaixo.

Qual a rotina de produção das suas crônicas?

Cristóvão Tezza: Escrevo minhas crônicas no mesmo ritmo da publicação – uma vez por semana. Em geral tenho três ou quatro crônicas de reserva, de temas mais gerais ou literários, e vou escrevendo, sempre que posso, sobre temas do dia.

De onde costumam sair os temas de suas crônicas? O noticiário é uma boa fonte?

Minhas crônicas são mais literárias que jornalísticas, embora o jornalismo seja fonte indispensável. Preciso lembrar que sou um cronista novato – nunca escrevi crônicas antes. Assino minha coluna na Gazeta há apenas quatro meses. Fui saindo da literatura para a crônica – uma passagem que não é fácil.

Os temas “miúdos” do cotidiano, tratados de maneira leve, são os que mais se ajustam à crônica?

Cada cronista, uma sentença. Não há fórmulas nesse gênero. Sim, os temas do cotidiano, tratados com leveza, dão o tom da crônica clássica, digamos assim. Mas há grande margem de liberdade.

Os seus temas costumam ser únicos e bem definidos ou podem ser vários e sofrer variações durante a escrita?

O tema é sempre único – em poucas linhas, não há muita dispersão possível. Mas o texto é lapidado muitas vezes.

Você escreveria de maneira idêntica se o jornal fosse outro?

A crônica tem a ver com o jornal diário – qualquer que fosse ele, o texto seria o mesmo.

A crônica causa uma ruptura em meio às páginas do jornal? Isso a afastaria do jornalismo?

A crônica é uma espécie de “respiro” no jornal – o leitor de certa forma descansa do noticiário objetivo. Mas ela nunca se afasta muito do jornalismo.

Que reação você espera do seu leitor ao ler uma crônica sua em meio às notícias de um jornal?

Que haja empatia com o texto. Aliás, diferentemente da literatura, o leitor é, objetivamente, uma figura importantíssima na elaboração do texto. Você pensa nele de uma forma que não existe na literatura, pelo menos para mim.

O que aconteceria com suas crônicas se fossem reunidas em livro?

Nunca pensei nisso. Mas um livro de crônicas tem de ser fiel ao que promete: deve conter crônicas, tais como saíram no jornal.

A crônica de Eduardo Galeano – Parte 1

Na primeira vez que li “O Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano, lembrei-me imediatamente de Rubem Braga. A associação talvez não seja óbvia, mas nem por isso parece equivocada: se havia um escritor que eu reconhecia o estilo, era o Rubem Braga. O cronista já havia tomado conta de boa parte das minhas horas de literatura, e eu era levado a acreditar nos críticos literários que diziam não haver nada na literatura mundial que se assemelhasse a uma crônica de Rubem Braga – um exagero agradável, e talvez verdadeiro.

Encontrei nesse livro do uruguaio Eduardo Galeano uma característica que, ao menos, lembrava um pouco aquilo que usualmente mais se valoriza no texto de Braga: o “acento lírico” – que nada mais é do que o destaque dado pelo escritor à uma visão poética do mundo, evidenciando trechos e frases de visível emoção. O acento lírico é a principal característica que os críticos literários utilizam para distanciar a crônica do Jornalismo e, assim, melhor aceitá-la entre os gêneros da Literatura.

É certo que essa característica também deve estar presente em outros escritores, inclusive no Brasil. Em Braga, no entanto, ela é entendida como responsável por elevar a crônica ao mais alto nível de Literatura – e não se menciona outro cronista que tenha feito algo semelhante. Eduardo Galeano escreve textos curtos e, além de tudo, também é jornalista. Supostamente (bem supostamente) não existe crônicas no Uruguai (o gênero é visto como algo tupiniquim). Seria possível que, de alguma maneira, os textos se Galeano fossem aproximados do que chamamos de crônica?

Como não sou da área de literatura, não ousarei opinar sobre a classificação literária mais adequada para os textos desse livro – numa rasa análise de leitor, seriam micro-contos.  Existem, no entanto, textos que o próprio autor chama de crônica em seus títulos. Minha intenção é verificar se essa classificação pode ser a crônica brasileira – gênero sobre o qual me debrucei durante todo o último ano da faculdade de Jornalismo.

O gênero é visto de maneiras tão diferentes por Jornalismo e Literatura que convém também avaliar os textos de Galeano sob essas duas perspectivas. Tentarei fazer isso nos próximos posts.

Antes, algumas “crônicas” de Eduardo Galeano:

A Função da Arte

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que
descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas
altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia,
depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a
imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao
pai: — Me ajuda a olhar!

A Fome/2

Um sistema de desvinculo: Boi sozinho se lambe melhor.., O próximo, o
outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo,
um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá de
comer, tampouco dá de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços.

A dignidade da arte

Eu escrevo para os que não podem me ler. Os de baixo, os que esperam
há séculos na fila da história, não sabem ler ou não tem com o quê. Quando chega
o desânimo, me faz bem recordar uma lição de dignidade da arte que recebi há
anos, num teatro de Assis, na Itália. Helena e eu tínhamos ido ver um espetáculo
de pantomima, e não havia ninguém. Ela e eu éramos os únicos espectadores.
Quando a luz se apagou, juntaram-se a nós o lanterninha e a mulher da bilheteria.
E, no entanto, os atores, mais numerosos que o público, trabalharam naquela noite como se estivessem vivendo a glória de uma estréia com lotação esgotada. Fizeram sua tarefa entregando-se inteiros, com tudo, com alma e vida; e foi uma maravilha.
Nossos aplausos ressoaram na solidão da sala. Nós aplaudimos até
esfolar as mãos.

Noite de Natal

Fernando Silva dirige o hospital de crianças, em Manágua. Na véspera do
Natal, ficou trabalhando até muito tarde. Os foguetes esposavam e os fogos de
artifício começavam a iluminar o céu quando Fernando decidiu ir embora. Em casa,
esperavam por ele para festejar.
Fez um último percorrido pelas salas, vendo se tudo ficava em ordem, e
estava nessa quando sentiu que passos o seguiam. Passos de algodão: virou e
descobriu que um dos doentinhos andava atrás dele. Na penumbra, reconheceu-o.
Era um menino que estava sozinho. Fernando reconheceu sua cara marcada pela
morte e aqueles olhos que pediam desculpas ou talvez pedissem licença.
Fernando aproximou-se e o menino roçou-o com a mão: — Diga para… —
sussurrou o menino —. Diga para alguém que eu estou aqui.

Livros de Formato Arquitetônico

Não sei você, mas eu gosto de deixar a minha estante de livros muito bem organizada. Isso significa que os livros estarão em ordem alfabética (primeiro pelo sobrenome do autor e depois pelo título da obra), separados por assuntos (os de literatura não se misturam com os livros técnicos) e dispostos de forma retilínea ao longo da estante (apesar dos tamanhos variados).

Venho conseguindo fazer isso com algum sucesso, mas de vez em quando sou surpreendido com um livro em formato esdrúxulo que não cabe na minha estante e, ainda se coubesse, destoaria de todo o conjunto. Sou obrigado a deixá-lo separado. Reparei então que há uma coincidência muito grande entre essas características e aquelas encontradas nos livros de arquitetura.

Tenho uma amiga arquiteta e perguntei a ela, ironicamente, se ninguém havia avisado aos arquitetos de que os livros não precisam ter formatos arquitetônicos. Naturalmente, minha amiga não tem a mesma obsessão sistemática que eu, e portanto nunca havia lhe ocorrido a ideia estapafúrdia de que o tamanho dos livros de arquitetura pudesse ser problema para alguém.

Explicou-me então que os tamanhos são justificados pelo presença ao longo dos livros de plantas, mapas e outras artimanhas arquitetônicas que precisam estar em tamanho grande, do contrário não são enxergados em detalhes. Não concordou com a minha sugestão de criar anexos. Entendi o problema, e gosto de pensar que em algum momento ela entendeu o meu também. Não há outra solução, parece-me, do que comprar uma estante apenas para livros desse porte.

Le Corbusier tem nove quilos de informação. Não tente levar para ler na cama ou no banheiro.

Recentemente peguei um livro de crônicas do Niemeyer, e reparei que os arquitetos também gostam de diagramações arquitetônicas. Seus textos, além de não justificados, eram escritos com um fonte nada agradável para a leitura. Certamente ele queria causar um efeito com isso, e a mim foi o de que aquele livro não seria comprado.

Notei ainda que o mesmo acontece com livros de turismo, recheados de fotografias gigantescas de paisagens naturais. Ora, as fotografias podem ser enxergadas em tamanho muito menor do que aquele, sem prejuízo de detalhes ou de beleza.

Aquelas pessoas como o Ruy Castro que consideram o livro como a mídia ideal, pois já vem no formato mais adequado para leitura, certamente não pegaram um livro desses para ler – muito menos deitado na cama, com o permanente risco de que despenque sobre a nossa cara.

Para não dizer que meu problema é apenas com livros grandes, digo que sou incomodado também pelos miúdos, aqueles livros “pocket”. Ficam tão mirradinhos na minha estante! E o mais irônico de tudo é que nenhum deles cabe no meu pocket. Eu poderia fazer outro texto apenas sobre o bolso das calças, mas acho que fugiria do tema deste blog.


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