A Fera e a Sociedade

Do lado de fora, era possível ouvir o animal. Motivo de apreensão. Caso escapasse, comprovaríamos se realmente a sua mordida alcança 1,5 tonelada de pressão. Seria o mesmo que encostar uma dentadura afiada no braço e empilhar sobre ela vários sacos cheios de cimento. O domador abre a jaula. A platéia em suspense, como se estivesse torcendo pela morte de um toureiro. Em um instante, a fera está solta. E corre na nossa direção. Não conseguimos mais nos mexer.

Fera?

Temos na nossa frente uma filhote de pitbull. Corre pra lá e pra cá, satisfeita com a inesperada liberdade. Percebe a nossa presença e começa a cheirar a nossa calça e brincar com nosso sapato, como um cachorro normal. E ao menor sinal do adestrador Marcelo Carneiro, a filhote se aquieta e trata de obedecer ao seu comando. “Essa ainda é pequena, mas quanto mais velho, mais fácil é pra obedecer”. Marcelo tenta passar ao pitbull noções de educação e socialização, através de técnicas de adestramento. “Não há um treinamento específico para a raça pitbull, mas ele pode ser direcionado”. Para ele, antes de tudo o animal precisa de educação.

Ele também não ignora a opinião que a sociedade costuma ter em relação ao pitbull. As notícias de pessoas que sofreram ataques de cachorros dessa raça aparecem freqüentemente nas páginas dos jornais, causando horror e indignação em muitas pessoas. Em Juliana Mendes da Silva, por exemplo. “Os pitbulls não passam confiança e não são dóceis. Parece que você está criando um galo de briga, e não o melhor amigo do homem“.

Então será que é uma coisa da natureza do animal mesmo? Marcelo diz que pode haver alguma causa específica, como um mal cruzamento. E  a raça pitbull foi desenvolvida pra briga. Só que mesmo assim o cão não se torna violento se tiver o acompanhamento certo. O problema é quem cria apenas pra deixar acorrentado. Já Juliana, acha que vai tanto da natureza como do dono. “Tem gente que se porta como se fosse o próprio cachorro”.

Em Belo Horizonte, os cães da raça pitbull passaram a receber um chip. Com isso, espera-se que seus donos possam ser identificados caso ocorra um ataque. Marcelo: “Excelente. Claro que não basta apenas ter um chip. Mas vai ajudar na identificação”. Juliana: “Ridículo. O dono vai ser encontrado por causa do chip, mas e a vida que foi tirada em um ataque não vai ser devolvida”.

O pitbull, a exemplo de outro animal, não pode ir contra o seu instinto. Para Marcelo, ele pode ser usado a seu favor, como cão de guarda, por exemplo. O que não significa um cachorro violento. “Cão de guarda é aquele que distingue bem as situações. Distingue as crianças, distingue quando alguém faz um movimento brusco”.

Com 90 dias, os pitbulls já receberam as vacinas devidas. Nesse período em que ainda é pequeno, as informações e os exemplos que recebem são fundamentais para desenvolver o comportamento do animal pelo resto da vida. Por isso Marcelo julga tão importante o acompanhamento apropriado para o pitbull. Isso implica em bastante tempo e dedicação. A recompensa seria se comunicar melhor com o animal, e torná-lo sociável como um outro cão qualquer. Mas Juliana não acredita em nada disso. “A agressividade deles não está apenas na criação ou na falta de carinho”.

Não significa dizer que ele será o cão ideal para uma família. Cada família em geral possui características próprias. “O ideal seria fazer uma seleção da raça de cachorro ideal para aquele grupo de pessoas”. Há muitas pessoas que escolhem ter um pitbull apenas pelo apelo que a mídia traz. Mas apesar disso, será que haveria algum problema em recomendar o pitbull a alguém? “Eu recomendaria, desde que a pessoa tenha condições psicológicas e que se preocupe em cuidar e educar o cachorro”.

Caso contrário, será um revólver na mão de um assassino.

 

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