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João Gilberto Noll – O romancista fora do lugar

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Um único stand em toda a Bienal do Livro de Curitiba ofereceu João Gilberto Noll para os 45 mil leitores que por lá passaram no começo do mês. Seus livros “Harmada” e “Hotel Atlântico” podiam ser comprados por míseros R$ 7 – praticamente nada perto dos quase R$ 50 cobrados pelas obras de Ruy Castro e Arnaldo Bloch, que também estiveram presentes na Bienal. Escolhi “Harmada” antes de descobrir que a obra está na lista de 100 Livros Essenciais da Literatura Brasileira, elaborada pela Bravo. E, mesmo ser ter começado a ler, fui ao Café Literário com o autor.

O Café estava cheio – de gente comprando comida. Gente que fazia barulho e que não sabia quem era Noll e o que ele estava fazendo ali. Embora tenha Prêmios Jabutis na carreira, o escritor não dispunha da mesma fama de um Cristóvão Tezza ou, digamos, de uma Marília Pêra. Mas pelo menos sete pessoas estavam atentas e prestavam atenção ao que ele dizia. Para elas, Noll recitou, ou declamou, ou mesmo cantou trechos de uma de suas prosas – o que deve ter aumentado o estranhamento de quem estava lá apenas para matar a fome. E quem prestava atenção e ainda não havia lido seus livros achava curioso quando Noll explicava que era um escritor da linguagem, e não do enredo. E, embora notassem sua inteligência, talvez tenham-no achado ligeiramente irritadiço – impressão que seria desfeita na mesa-redonda do dia seguinte.

Nela, Noll se uniu a Tezza e Raimundo Carrero para discutir as fronteiras entre realidade e ficção. Enquanto o debate não começava, era possível enxergar alguns livros do escritor circulando pela plateia – dessa vez bem mais numerosa. Quando perguntei a Noll sobre o tema da mesa-redonda, alguns dias antes, não entendi a sua resposta. Falava em materialidade da língua ficcional, seu aspecto sonoro e sua sintaxe. A reinvenção do real estaria nessas características, e não na trama de seus livros. Agora eu lia “Harmada” e começava a ter uma ideia do que o escritor dizia. “Em mim, o grande pico estilístico está na sintaxe, pois ela é a pauta para se viver a musicalidade do texto, seu ritmo, andamento, seus torneios”. Tudo isso agora se tornava absurdamente claro.

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Noll está tranquilo. Mantém uma expressão serena e ouve com atenção a fala de Tezza e Carrero. O público gargalha diante de piadas feitas pelos dois escritores. O semblante de Noll, no máximo, se transforma em um sorriso de boca fechada. E, quando chega a sua vez, o escritor fala como escreve: suas palavras se transformam em rebuscada e envolvente prosa poética. O roteiro não tem tanta importância como a linguagem. E, aos poucos, em frases pausadas e gestuais, ela vai relevando o estilo de Noll, um romancista que prefere ler poesia.

“Sou um romancista fora do lugar”, admite. Escreve sem saber onde vai chegar – compara a parte narrativa dos seus textos com a linguagem do cinema. Ao terminar de escrever um livro, refaz todo o seu início, pois, fatalmente, estará com linguagem diversa do restante da obra. Recentemente, descobriu que os protagonistas de seus livros são a mesma pessoa – e ela não é o autor, mas alguém cuja sobrevivência dentro de Noll é vital. Ultimamente, os períodos em seus livros estão mais longos, como se quisessem dizer tudo em um único fôlego. “É como se eu adiasse o fim do ponto gráfico, e fosse montando frases construtoras de simultaneidades”. Esse é o desejo de uma modernidade que, para Noll, idolatra a pressa e a urgência.

Mas o mundo teve calma para ouvi-lo e, ao final, parece ter gostado do resultado. A mesa-redonda foi encerrada e um Noll simpático e com poucas palavras começou a distribuir autógrafos para aqueles que o conheciam. Os outros saíram, mas pude encontrar alguns deles conversando. “Gostei do segundo. Ele falou coisas que fazem a gente pensar. João Gilberto Noll. Vou pesquisar sobre esse cara na internet”.

O romancista estava no lugar certo.

A crônica de Carlos Herculano Lopes

Carlos Herculano Lopes é mineiro, e talvez por isso quase tenha passado despercebido na I Bienal do Livro de Curitiba. Na mesa-redonda que participou, sobre literatura no novo milênio, foi ofuscado pela elegância de Domingos Pellegrini e pela impetuosidade de Clarah Averbuck. Mas houve espaço para um debate paralelo sobre a crônica – que dificilmente é tema de discussões, mas sempre acaba surgindo durante a conversa.

Lopes escreveu em torno de 600 crônicas para o Estado de Minas, várias delas depois lançadas em coletâneas como “O Pescador de Latinhas”, “O Chapéu do Seu Aguiar”, e outras. O autor foi criado no jornalismo antigo, ainda na máquina de escrever. Acha fascinante as novas tecnologias, e se admira com as possibilidades que elas oferecem para o gênero da crônica: “A resposta do leitor é rápida. Pouco tempo depois do jornal sair, recebo emails comentando”.  E se já passar do meio-dia e ninguém tiver comentado, não precisa se iludir: ninguém irá comentar mesmo.

Para o jornalista, não é possível precisar do que o leitor irá gostar na crônica – normalmente, uma passagem que o próprio escritor não achava tão importante é o que chama mais a atenção do leitor e o motiva a comentar. E isso torna o gênero ainda mais atraente. Mas Lopes não pensa no leitor quando escreve, e também sente a dificuldade natural de quem precisa escrever respeitando uma periodicidade: a falta de assunto. “Mas em Minas, as crônicas com maior sucesso são as que falam de casos”. Uma vez encontrado o mote, Lopes escreve a sua crônica em 40 ou 50 minutos – o que, na verdade, é um tempo parecido com a duração do gênero nas páginas do jornal.

Domingos Pellegrini e a nova literatura II

Durante a mesa redonda que participou na I Bienal do Livro de Curitiba, dia 02/09, o escritor paranaense Domingos Pellegrini reforçou o que havia dito em entrevista a este blog sobre as possíveis mudanças na literatura para este milênio.  Pellegrini acredita que o livro vai “mestiçar”, mas entende que alguns princípios são imutáveis e continuarão orientando a produção literária: a percepção, a composição, a singularidade e a comprovação – além do talento, que continuará sendo determinante. O autor entende que os “novos” formatos renovam os antigos, mas não os abandonam totalmente. Por conta disso, o escritor do novo milênio precisaria ter o cuidado para não cair na “radicalização” do novo e tampouco estacionar na “tradicionalização”. A possível solução seria, portanto, inovar dentro da tradição. E o futuro continua sendo imponderável e imprevisível.

Miranda debate a situação atual da literatura

O valor da literatura nos dias de hoje, a sua legitimidade como objeto cultural e também as vias de acesso pelo leitor comum ou especializado são alguns dos temas que, segundo o doutor Wander Melo Miranda, farão parte da mesa-redonda de hoje, na I Bienal do Livro de Curitiba. “A literatura não está em perigo. Ao contrário, têm sido ampliadas cada vez mais suas possibilidades de apropriação por diferentes áreas do conhecimento, o que é um ganho expressivo”, justifica. Deverão estar incluídas na discussão o uso de recursos virtuais como forma de propagação e criação do texto literário. A mesa contará, ainda, com a participação de Regina Zilberman e o escritor paranaense Miguel Sanches Neto. O início está previsto para às 19h30 desta segunda-feira, no Auditório Paulo Leminski.

Domingos Pellegrini e a nova literatura

O novo milênio se aproxima do fim de sua primeira década, mas ainda se discute as inovações e novas regras que ele pode trazer para a literatura. O escritor Domingos Pellegrini, uma das atrações da I Bienal do Livro de Curitiba, vê com desconfiança as perspectivas desse novo cenário. Para ele, sempre que se tenta precisar regras ou características inovadoras para a literatura, elas são desmentidas pela realidade. “O novo milênio apenas confirma que a literatura continuará imune a regras e previsões, pois, como tudo que é humano, é essencialmente contraditória”, explica.

Prova disso é que há alguns anos Pellegrini recebeu de editoras o aviso de que os livros juvenis deveriam ter no máximo 60 páginas, pois, acreditava-se, os jovens estavam lendo cada vez menos e, portanto, diminuir o tamanho das obras era essencial para manter as vendas. O que os editores não previam, no entanto, era o sucesso que a série Harry Potter iria alcançar, com suas edições que possuem bem mais do que 60 páginas. Pellegrini lembra ainda que há outros livros grossos, como o “Crepúsculo”, que continuam fazendo sucesso entre os jovens. A suposta renovação trazida pelo novo milênio também não impediu que essas mesmas obras se valessem de recursos antigos da literatura – como a figura do vampiro.

O escritor também entende que uma narrativa pode ser inovadora em termos de linguagem, mas retrógrada na visão de mundo – e vice-versa. “Os Sertões, de Euclides da Cunha, tem uma visão ética renovadora, mas a linguagem é solene, às vezes até barroca”, acredita. Essas contradições nasceriam diretamente da natureza humana, e tornariam mais complicado o “baralho literário”, como chama o autor.

Contraditório também é o adjetivo que Pellegrini usa para falar das inovações trazidas à literatura pela internet. O escritor entende que, ao facilitar a divulgação de “conteúdo”, a internet também acaba ressaltando a falta de conteúdo da maioria dos textos, e assim evidenciando a necessidade de seletividade. Essas questões fazem com que o escritor acredite que o novo milênio é apenas um marco no calendário, e que não corresponde, necessariamente, à mudanças efetivas na vida real e na literatura. “A literatura do novo milênio deverá continuar obedecendo a antiquíssimos princípios: quem quer se comunicar mais, deve ser claro; quem quiser se expressar sem almejar comunicação plena, poderá ser menos claro quanto mais expressivo”.

Como exemplo, Pellegrini  cita o livro “A Luta Corporal”, de Ferreira Gullar, em que o poeta se tornou tão expressivo que ficou incompreensível, criando uma linguagem específica que só ele podia entender. Mas mesmo o conceito da simplicidade e da clareza na literatura pode ser contraditório: “Também temos os tantos autores que, de tão claros e simples, tornam-se dispensáveis”, finaliza.

Domingos Pellegrini fará parte da mesa-redonda “Novo Milênio, Novos Leitores, Inova Literatura”, na I Bienal do Livro de Curitiba. O debate acontecerá às 19h30 da próxima quarta-feira, 02/09, no auditório principal da Expo Unimed. Além de Pellegrini, a mesa também contará com a participação dos escritores Carlos Herculano Lopes e Clarah Averbuck.

Restam vagas para oficinas de Crônica e Poesia

Quem quiser participar das oficinas de Crônica e Poesia da Bienal do Livro de Curitiba, deve se apressar, pois restam poucas vagas. As oficinas de Romance, com Raimundo Carrero, e de contos, com Antônio Torres, já tiveram suas inscrições esgotadas. Torres também ministrará a oficina de Crônica, enquanto que a oficina de Poesia será ministrada por Antônio Carlos Secchin. Todas as oficinas serão feitas em três dias durante a Bienal, conforme consta na programação.

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo telefone (41) 3340-4349 com Cristiane. Apenas será cobrada a entrada na Bienal, que custa R$ 2 para o público em geral, com meia-entrada para estudantes e professores.

Arnaldo Bloch explica singularidade de sua biografia

O gênero da biografia, responsável por grande sucesso editorial no Brasil, será tema de uma das mesas-redondas da I Bienal do Livro de Curitiba. Dela farão parte os escritores Ruy Castro, Fernando Morais e Arnaldo Bloch – autor da obra biográfica “Os Irmãos Karamabloch – Ascenção e Queda de um Império Familiar” (Companhia das Letras), em que narra a saga da família Bloch, desde o tempo em que habitava uma aldeia na Ucrânia até imigrar ao Brasil e aqui conseguir manter um grande império de comunicação.

Bloch considera que o estilo da sua biografia difere daquele que é praticado por Castro e Morais – que é o da biografia clássica, em que jornalismo e história se unem e a literatura surge mais como recurso estilístico. “Numa biografia como a que escrevi, polifônica e coletiva, as diversas narrativas e vida das pessoas é já romanesca na fonte, independentemente da ação do autor”, explica. Essas características tornam a obra mais literária, ainda que a pesquisa também esteja envolvida – seria essa, portanto, a singularidade da biografia de “Os Irmãos Karamabloch”.

No momento de escrever a sua biografia, Bloch procurou se livrar de qualquer amarra, para só então fazer uma depuração no conteúdo. “Isso fez de meu livro um livro desassombrado, em que guardei distância crítica suficiente para não cair no laudatório e admiração bastante para não me render à vã maledicência”, afirma. O autor também considera que o conceito de verdade, ao escrever um gênero como a biografia, se torna mais abrangente quando se leva em conta o imaginário unido aos fatos e a emoção unida à razão.

Questões como essas serão abordadas durante a mesa-redonda, que está prevista para às 19h30 da próxima terça-feira no pavilhão principal da Expo Unimed, durante as atrações da I Bienal do Livro de Curitiba, que segue de quinta-feira até dia 04/09.


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