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Moacyr Scliar e a literatura na Folha de SP

Em 1993, a Folha de São Paulo convidou alguns escritores para escrever semanalmente um texto literário embasado em uma das notícias publicadas pelo veículo. Moacyr Scliar, a princípio, não entendeu a ideia. “Vocês querem uma crônica, isso?”. Não era. O texto deveria ser ficcional e se aproximar do conto. Embora duvidasse do resultado, Scliar aceitou o convite – e foi o único que se firmou no projeto.

Foto: Beto Scliar/Folha ImagemNas primeiras semanas, era a própria Folha quem escolhia a notícia sobre a qual o escritor deveria tratar. Nem sempre as escolhas do jornal coincidiam com os interesses de Scliar. O escritor costumava receber como tema notícias no estilo “matou a família e foi ao cinema” – assuntos que o faziam se sentir repugnado. Scliar sugeriu, então, que ele próprio fizesse a escolha da notícia.

E, desde então, toda semana o escritor procura no jornal aqueles assuntos que primem pelo inusitado, que possuam interesse humano e que deem mais margem para a imaginação. Embora reconheça a linha tênue que separa fato e ficção, e sabendo que suas histórias têm origem em uma informação concreta, a produção de Scliar é entendida como texto literário – ou seja, destoa do caráter informativo do restante do jornal.

Jornalismo ou Literatura?

A doutora Barbara Heller apresentou em 2005 um trabalho chamado “Jornalismo ou Literatura – A Produção de Moacyr Scliar”, na qual analisa textos do escritor que saíram da Folha de São Paulo e migraram para a coletânea “O Imaginário Cotidiano”. Heller faz uma análise quantitativa de três contos de Scliar, verificando quantos parágrafos tratam do fato noticiado e quantos são criação literária e ficcional.

Sabendo que a motivação inicial da coluna de Scliar, já a partir do convite feito pelo jornal, é a criação literária, entende-se que análises semelhantes sempre irão revelar o que já se sabe – ou seja, que seus textos são amplamente ficcionais. A citação do fato jornalístico varia de tamanho conforme o texto, mas está ali, em todos os casos, apenas como pano de fundo para que o escritor faça um trabalho de ficção.

A pesquisa também se propõe a verificar se Scliar procura divertir ou informar em seus textos. Sabendo que são textos ficcionais, o resultado, naturalmente, evidencia que sua produção não está relacionada com a missão de informar – o que é feito apenas pela citação da notícia que lhe serviu de mote. Heller também considerou que as notícias escolhidas pelo escritor realmente informam, mais do que divertem.

Uma das conclusões obtidas pela pesquisa foi a de que as diferenças entre texto jornalístico e literário são tênues, mas existem – o que também é afirmado pelo próprio escritor. Essas diferenças, no entanto, parecem ser mais sutis do que a simples escolha do tema e suas motivações – uma vez que elas sempre objetivaram a literatura. O escritor se apropria de um fato e seus elementos, mas cria uma nova realidade que é sabidamente ficcional. Talvez as diferenças também digam respeito a outras características, como a própria linguagem do texto ou as expectativas de Scliar com o público diversificado de um jornal.

Moacyr Scliar é uma das atrações da 28ª Feira do Livro do Sesc – Paraná. No dia 06 de outubro, ele dará uma palestra justamente sobre Literatura e Jornalismo, e provavelmente muitas dessas questões se tornarão mais claras, permitindo melhor compreender de que forma as duas áreas interagem para formar o tipo de texto produzido pelo escritor na Folha de São Paulo.


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