A credibilidade acima da metodologia

Martim W. Bauer e Georg Gaskell são os autores de uma publicação chamada “Pesquisa Qualitativa com Texto, Imagem e Som – Um Manual Prático”, cuja versão para o português foi feita por Pedrinho A. Guareschi. Nela se encontra o capítulo “Qualidade, Quantidade e Interesses do Conhecimento – Evitando Confusões”. Esse capítulo tem a proposta de estudar as técnicas e metodologias utilizadas no delineamento da pesquisa científica, na geração e na análise de dados sociais, com todas as características envolvidas nos diferentes casos, como os meios de representação, a retórica, e os interesses do conhecimento. Tal estudo tem como objeto central a discussão entre pesquisas quantitativas e pesquisas qualitativas, com todas as especificidades que resultam dessa dicotomia.

Bauer e Gaskell procuram, antes de tudo, fazer uma espécie de revisão teórica dos principais estudos que tratam das pesquisas quantitativas e qualitativas. Desse modo, procuram mostrar os diferentes pontos de vistas e argumentos em ambos os casos, com alguma referência a períodos históricos, cuidando também de caracterizá-los da melhor maneira possível para que então possa ser mais fácil fazer uma diferenciação entre elas e mesmo encontrar semelhanças. Isso porque, toda a argumentação dos autores dá a entender que é inútil a divisão entre essas duas metodologias e técnicas da pesquisa. Para melhor esclarecer as diferenças e semelhanças, os autores fazem uso de algumas tabelas que seguem os preceitos de outros autores. Feita essa análise primária do campo de interesse, eles partem então para defender o seu próprio ponto de vista, contrapondo com alguns autores e concordando com outros. Essa visão de Bauer e Gaskell se baseia bastante na própria interpretação dos autores, embora os argumentos ganhem em credibilidade com a citação de autores que corroboram com as suas opiniões, principalmente Habermas.

Os autores parecem corretos ao tratar da inutilidade da divisão entre as duas metodologias de pesquisa social. A pesquisa quantitativa tem o seu valor garantido pela legitimidade que em geral os números dão aos fatos. Embora os dados possam ser distorcidos de alguma maneira para atender a determinados interesses, parece certo que a simples divulgação de dados de uma pesquisa quantitativa são referenciais e muitas vezes usados como argumentos críticos para conseguir determinado fim. Mas esse uso dos dados quantitativos como argumentação já é uma prova de que não é possível uma pesquisa quantitativa sem a interpretação devida dos fatos – em outras palavras, sem a pesquisa qualitativa. O bom uso de pesquisas que envolvem dados numéricos depende de uma manipulação correta dos mesmos, a fim de dar o sentido devido ao fim que se propõe. A parte “qualitativa” da pesquisa quantitativa vai além da interpretação crítica dos fatos que é feita antes de iniciar a pesquisa; é uma característica que acompanha todo o processo de pesquisa e que continua no momento de sua divulgação e a conseqüente recepção por parte do público. O perigo é ser levado a crer que a pesquisa quantitativa é aquela que deixa de lado a simples retórica para dar a devida apuração dos fatos. Como dito, a divulgação dos dados de uma pesquisa quantitativa não são inquestionáveis. Por sua vez, a pesquisa qualitativa, que se preocupa com um aprofundamento maior e cujos dados são em geral textos, ao invés de números, poderão ter a sua credibilidade aumentada se em algum momento fizerem uso de um dado quantitativo na sua argumentação. Assim sendo, as duas metodologias diferentes estão intimamente ligadas, e o uso maior de uma delas é apenas um método de pesquisa que não exclui a outra, e que pode muito bem se servir dela para melhorar e tornar mais legítimos os resultados.

O reconhecimento de que a retórica é parte integrante da pesquisa social, e de maneira indissociável, como nos mostram Bauer e Gaskell, é importante para melhor compreendermos as técnicas usadas para a realização dessas pesquisas, e a maneira como é possível aperfeiçoá-las, de modo a existir um certo “distanciamento”. Não se trata de criar pesquisas acríticas, mas que, nos termos usados pelos autores, reduzam “o ethos e o pathos” no processo de comunicação dessas informações. Importante também é a questão do “interesse” existente por trás das pesquisas sociais. Os autores se embasam bastante em Habermas, e citam as três diferenciações dos interesses que ele faz. De uma forma ou de outra, parece correto que o interesse é uma condição necessária para possibilitar a prática da pesquisa. O cuidado está, tanto na pesquisa quantitativa como qualitativa, em não fazer com que a motivação inicial da pesquisa se sobreponha aos resultados alçançados de modo a moldar os efeitos de acordo com esses interesses. O cuidado com a credibilidade, posta a prova através da própria divulgação dos dados quantitativos ou qualitativos, torna melhor o resultado da pesquisa social do que a metodologia empregada.

Não se pode falar que a pesquisa quantitativa se preocupa apenas com o controle dos dados, tendo pouca preocupação com o entendimento dos mesmos. A simples coleta de dados numéricos, em si, já supõe uma preocupação “crítica” anterior. E isso também é condicionado a uma aproximação do ambiente histórico e social em que a pesquisa será feita. Outro dos argumentos, dessa vez dos militantes qualitativos, citados pelos autores e que parece equivocado é de que a pesquisa qualitativa dá mais voz às pessoas, tornando-as mais do que simples números. Essa suposta mecanização da pesquisa quantitativa, é apenas uma aparência que resulta da própria estatístíca e da diferenciação de metódos na coleta e na divulgação dos dados. Textos tendem a ser mais próximos das pessoas do que números, mas não é possível generalizar um ou outro caso, pois como visto, as duas metodologias acabam se complementando.

Bauer e Gaskell nos lembram da importância da metodologia de acordo com o público que espera se alcançar. Dados quantitativos podem ser importantes para determinados segmentos, mas se a pesquisa privilegiar dados qualitativos, os efeitos podem não ser os mesmos. E vice-versa. Percebe-se então que a escolha da metodologia a ser empregada na pesquisa deve levar em conta a recepção que se esperava na divulgação dos resultados. Caso não exista diferenciação significativa para o público receptor entre dados quantitativos ou qualitativos, a escolha recai sobre o pesquisador, que pode muito bem mesclar as duas coisas, ainda que dando mais espaço para um do que outro, mas com uma dosagem que consiga atender os “interesses” que possui e que satisfaçam a crítica e a motivação inicial que o levaram até aquela pesquisa.

A busca pelo logos da pesquisa, mesmo que não seja um ideal totalmente alcancável, deve fazer com que ambas as metodologias se dispam de possíveis preconceitos, também de métodos, para criar uma reflexão que vá além dos interesses que por vezes distorcem dados quantitativos ou qualitativos. Dessa forma, e também não crendo na imparcialidade total das pesquisas já realizadas, será possível evitar mentiras repetidas até virar verdade, e enfim, fazer pesquisa científica social.

Anúncios

0 Responses to “A credibilidade acima da metodologia”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Pasquim no Twitter

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.


%d blogueiros gostam disto: