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Andar da Crítica – Entrevista com José Luiz Braga

No ano passado, José Luiz Braga, autor do livro “A Sociedade Enfrenta a Sua Mídia – Dispositivos Sociais de Crítica Midiática” (Paulus/2006), esteve na Unibrasil, em Curitiba, ministrando uma palestra sobre o tema de sua obra. Na ocasião, Braga respondeu a uma entrevista que lhe fiz e que, como não encontrou espaço para ser divulgada na época, reproduzo aqui no blog.

Uma resenha do livro de Braga está disponível aqui.

Antes da entrevista específica, Braga enfatizou uma perspectiva diferente de “crítica”, que não abrange apenas a crítica especializada de imprensa e a crítica acadêmica. Embora valorizando esses dois patamares, Braga inclui como “crítica” processos com origens diversas, e que ultrapassam o padrão de avaliar ou ampliar o conhecimento de modo abstrato. Em especial, Braga destaca as “críticas de sociedade”, feitas por usuários da mídia que desenvolvem um enfrentamento não-especializado. Os diferentes tipo de crítica, no entanto, podem se mesclar e se apoiar mutuamente.

Pasquim Cultural: Como a crítica deveria se comportar em relação a meios ainda em expansão, como a internet? E em meios tradicionais, com valores muitas vezes já definidos?

José Luiz Braga:   Nos “meios novos”, há mais experimentação de processos. Paralelamente, as críticas (em qualquer setor) tendem a ser mais maniqueístas: ou tudo é bom, as “novas mídias” nos salvarão; ou tudo é mau, as “novas mídias” estão destruindo a sociedade. Trata-se aí da tradicional dualidade “apocalípticos x integrados”, como nomeado por Umberto Eco. Note-se que tal dualismo se apresentou desde a invenção da escrita na Grécia antiga. Quando os meios vão ficando mais estabelecidos, supera-se aos poucos a “crítica do meio” (extremada) em favor de uma crítica mais qualitativa e refletida de produtos específicos. Quanto à Internet, isso também tem ocorrido – há ainda uma visão muito marcada, “contra ou a favor” – mas que vai sendo superada (talvez mais rapidamente do que ocorreu com a televisão). Um aspecto interessante é que essa mídia está viabilizando experimentação social muito diversificada. Junto com as experiências de interação, desenvolve-se também uma boa invenção de processos críticos. Não é “a mídia Internet” que faz tais invenções – são os processos sociais de uso. E nestes, junto com muita coisa inovadora e interessante, são feitas também coisas muito ruins e às vezes terríveis, como sabemos. A crítica de sociedade se comporta como deve: concretiza e reage. As críticas especializadas deveriam (em vez de assumir posturas totalizantes) procurar fazer algumas coisas como: refletir sobre os processos (disponibilizados e socialmente criados); tentar apreender suas melhores possibilidades, inventar, também; e sobretudo, superar as posições maniqueístas.

PC: A tendência é realmente observar mais a estrutura do objeto criticado do que o processo em ação? Em quais dispositivos isso se torna mais evidente?

Braga: Nossa realidade social brasileira, a tendência parece ser sobretudo a de permanecer em discussões superficiais sobre os temas tratados. Discute pouco as “estruturas do objeto criticado” (o que já não seria mau). A reflexão sobre o processo em ação é mais rara ainda. Mas isso são tendências – é claro que junto com as discussões temáticas (que “percebem” pouco os processos midiáticos) há debates e comentários muito interessantes, nos três ambientes de elaboração crítica. A maior parte dos dispositivos que abordei no livro “A sociedade enfrenta sua mídia” apresenta pelo menos alguns enfoques e táticas muito positivas. E mesmo os dispositivos sobre os quais aponto alguns limites, estes podem ser estudados para pensarmos em sua superação.

PC: De que maneira uma crítica especializada poderia conseguir alcançar outros setores da sociedade, e como isso a ajudaria? Como seria possível ir além dos “iniciados”?

Braga: Essa é uma questão que apenas começo a discutir no livro “A sociedade enfrenta…” – no capítulo final. Mas para nós, da Imprensa ou da Universidade, acho que é fundamental, hoje, entender as “críticas de sociedade” e aprender com elas. Não porque sejam sempre excelentes, longe disso. Mas para perceber processos, para entender “lógicas locais” de enfrentamento, refletir sobre como “nossos processos” de crítica (especializados) podem ser tensionados por aqueles processos de realidade social e sobre como poderíamos contribuir para apoiar aqueles, com nossas perspectivas. Só podemos ir além dos “iniciados” se falarmos a mesma língua dos “não iniciados”. Não para convencê-los das perspectivas da crítica especializada, mas para produzir interação entre os diferentes processos.

PC: A crítica corre o risco de apenas confortar opiniões que o leitor já possui, impedindo o debate e o desenvolvimento? Como alcançar a produtividade da crítica?

Braga: A crítica midiática, hoje (e estou falando em sentido amplo – veja-se o capítulo “Quando a mídia é notícia” do livro, em que trato do modo como a mídia faz circular informação sobre a mídia) – essa crítica, realmente, tende a apenas confortar opiniões já estabelecidas. Também não faz avançar nada uma crítica genérica meramente contrária (“apocalíptica”) a tudo que se faz na mídia – não se aprende nada com isso. Por outro lado, há opiniões críticas sensatas e produtivas que circulam, com análises e interpretações que ajudam o leitor ou espectador a entender processos e compreender o que vê e ouve. Infelizmente, no Brasil, os dispositivos sociais de crítica (conforme conceituo no livro) são ainda poucos e com pouca abrangência. Como estes dispositivos, para circularem e estimularem percepção e debate, devem se articular com diferentes mídias, creio que um bom caminho de produtividade crítica seria justamente ampliar o diálogo entre as críticas de sociedade e as críticas especializadas, gerar mais debates televisuais e radiofônicos em que o tema seja a mídia e seus processos, estimular uma aprendizagem social generalizada sobre os processos de produção e de criação da mídia. Para dar um exemplo. Um programa como o Profissão Repórter, de Caco Barcelos, não faz o que chamamos habitualmente de “crítica midiática”. Mas mostra, de um modo interessante, como se faz um determinado tipo de reportagem. Um público geral que aprenda tais processos pode passar a ser mais exigente quanto ao que sua mídia lhe oferece, pode ser mais crítico e interpretar com mais rigor. Nessa perspectiva, tudo o que estimula uma circulação mais esclarecida e transparente da mídia serve para dar mais produtividade ao que chamo, no livro, de “terceiro sistema”: a resposta social. Acredito que a melhor produtividade da crítica corresponde a tudo o que possa estimular e desenvolver a acuidade da resposta social.

PC: Em que medida a crítica acadêmica atual encontra maior facilidade para enfrentar a mídia?

Braga: Já superamos, na academia, uma tendência muito forte até os anos 70, de uma crítica abrangente, totalizadora e apocalíptica, voltada para os meios sem muita preocupação com sua diversidade interna. Hoje, embora talvez ainda com uma certa dispersão e com “altos e baixos”, já se faz uma análise de produtos e de processos com boa acuidade e com desenvolvimento de teorias, de conceitos e de descrições muito interessantes. Na linha de pesquisa em que trabalho – Midiatização e Processos Sociais – com mais três colegas, no PPG em Ciências da Comunicação da Unisinos, estamos particularmente interessados nos modos de funcionamento que fazem da midiatização, crescentemente, um processo interacional de referência, penetrando a sociedade em todos os seus setores e ambientes. Uma das preocupações de nosso grupo é entender estes processos, que desafios trazem (em geral ou para setores específicos), como a sociedade enfrenta estes desafios. Note-se que, quando falamos em “processos midiáticos” não estamos tratando apenas da “grande mídia” (jornais, televisão, rádio, cinema), nem só do processo produtivo e emissor. Estamos abordando também o “sistema de recepção” e o que denominamos “terceiro sistema”, de resposta social (que é onde situamos os “dispositivos sociais de crítica midiática”). Acreditamos, em nosso grupo de pesquisa da Unisinos, que os conhecimentos aí desenvolvidos (e que certamente são mais diversos e amplos que as propostas de meu livro referido) correspondem a bons encaminhamentos para a crítica acadêmica “enfrentar a mídia” – ou seja, para compreender os diferentes processos sociais em que ela se envolve.

PC: A crítica de televisão corre o risco de ser apenas moral? Quais as potencialidades desse tipo de crítica que poderiam ser exploradas?

Braga: Uma crítica de tipo “moralista” serve apenas para produzir recusa e não aperfeiçoamento. É claro que há determinadas posições éticas da sociedade que devem ser fortemente defendidas. Uma parte destas depende mais de regulamentações jurídico-sociais do que de um trabalho crítico. Eu defendo, aí, uma regulação punitiva post-facto, evidentemente, e não uma censura prévia. É o caso da pedofilia via Internet, ou do estímulo ao suicídio, de que temos tido notícia. Mas uma crítica social-midiática pode ser um elemento auxiliar relevante. Em perspectiva geral, é claro que certas ênfases em sexo & violência, particularmente na TV, devem ser criticamente observadas. Entretanto, a mera denúncia indignada não parece ter efeitos produtivos: primeiro, “prega aos convertidos”; depois, tende a ser conservadora e intolerante. Mais importante, seria estimular processos de aprendizagem (na escola e na mídia) que ajudem a formar um cidadão lúcido, que saiba lidar com as questões morais conforme surgem na sociedade – e não formar “cruzados” cheios de indignação. O risco é justamente este, apontado na pergunta – o de críticas sobre coisas morais se caracterizar como uma “crítica moralizante”, socialmente estreita. A melhor crítica seria aquela competente para analisar produtos e processos em sua especificidade; e para propor encaminhamentos e desenvolvimento inteligente e criativo dos produtos que circulam, em vez de brandir anátemas.

PC: Há condições de se criar uma consciência crítica no Brasil que vá além de simplesmente julgar? De que maneira os dispositivos já oferecidos pela mídia podem ser melhor utilizados?

Braga: Um dos problemas mais sérios da sociedade brasileira é o da baixa valorização da educação, em todos os níveis e ângulos – lembrando que educação não é só “diploma na parede”, mas sobretudo esclarecimento e participação de cidadania. Isso deveria ser buscado na Escola, na mídia e em todos os setores que possam desenvolver a experiência civilizatória das pessoas. Entendo que uma das principais obrigações sociais dos profissionais da mídia é oferecer produtos que respeitem a inteligência dos usuários – e que estimulem sua percepção do mundo e dos processos político-sociais e culturais. Uma boa crítica deveria também contribuir para “ir além do julgar”. E mais ainda, ir além de fazer “acreditar no crítico”. Não se trata, justamente, de fazer críticas metidas a eruditas ou pretensiosas – mas sim de trabalhar os produtos e processos de sua atenção com inteligência, simplicidade e, se possível, ironia. Quando se trata dos “dispositivos oferecidos pela mídia”, geralmente se pensa no sistema empresarial produtivo. O sistema de resposta é (ou deveria ser) mais amplo que isso. Mas “na mídia” é sempre possível “utilizar melhor”, se houver disponibilidade para criação inteligente, para a escuta de seu público. O melhor profissional (na mídia ou na crítica) – em vez de simplesmente querer impor suas preferências ou, rasteiramente, oferecer “o que o público quer” (expressão que é uma falácia, encobrindo a preguiça de ouvir e um desrespeito pelo interlocutor) – é o que se dispõe efetivamente a entender o público com quem pretende falar.

Henrique Luiz Fendrich

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Possibilidades da Crítica em Enfrentar a Mídia

Uma das impressões que se tem ao ler a obra “A Sociedade Enfrenta a Sua Mídia – Dispositivos Sociais de Crítica Midiática” (Paulus/2006), de José Luiz Braga, é a de que dificilmente certos antagonismos serão capazes de explicar com clareza os processos da mídia. E, de fato, o autor nos mostra que divisões clássicas como “apocalípticos e integrados”, cujo sentido existe desde a Grécia Antiga, passando por “mídia” e “sociedade” e, mais especificamente, a “produção” e “recepção” não são suficientes para que se compreenda as relações midiáticas em sua totalidade. Ao contrário, elas poderiam apenas confortar opiniões. O autor propõe uma perspectiva diversa, que busca interligar esses pólos opostos através da criação de um outro: o sistema de respostas sociais, ou o “sistema de interação social sobre a mídia”.

Através desse sistema, seria possível também avançar no conhecimento da crítica, um dos retornos possíveis. Esse terceiro campo proposto por Braga, indo além da produção e da recepção, abriga as respostas que a sociedade gera depois de receber o que foi produzido. Em suma, aquilo que se conversa sobre o que se consome. As pesquisas, de um modo geral, tendem a se concentrar na produção ou na recepção. Com o sistema de respostas sociais, seria possível unificar essas estruturas, colocando-as em um mesmo patamar de importância e facilitando o estudo das articulações entre eles. Dessas interações, é possível desenvolver o pensamento crítico na sociedade.

Quando a sociedade fala sobre a mídia, ela também seria capaz de fazer a crítica – que, portanto, não se restringe ao ambiente jornalístico ou acadêmico. Uma conversa de bar sobre a mídia, nesse sentido, também seria considerada crítica. A consciência da existência da crítica de sociedade, que não é melhor nem pior que as críticas especializadas, chama a atenção para a influência que ela é capaz de causar para as outras críticas e para os produtos midiáticos.

Também se usa a própria mídia para dar respostas aos seus processos. Braga desmistifica a opinião de que, para se fazer uma crítica da mídia com qualidade, é preciso se distanciar da produção midiática. Agindo dessa maneira, a possibilidade da crítica em produzir efeitos nos usuários daquilo que é criticado se torna muito menor. Os primeiros capítulos do livro são utilizados para situar o leitor dentro da nova perspectiva teórica que o pesquisador propõe, ressaltando as possibilidades que ela abre na própria sociedade – e fornecendo maior conhecimento crítico ao leitor. Braga também enuncia os critérios que lhe servirão de base, e então, na segunda parte do livro, analisa as especificidades de seus objetos empíricos, que, nesse caso, são alguns dispositivos de crítica existentes. São feitas esmiuçadas análises sobre a resposta social encontrada em cartas de leitores, em colunas de ombudsman dos jornais, em críticas jornalísticas de cinema e de televisão, no site “Observatório da Imprensa”, nos livros de Ricardo Noblat “A Arte de Fazer um Jornal Diário”, de Arlindo Machado “A Televisão Levada a Sério” e de Luis Nassif “O Jornalismo nos Anos 90″, além do site “Ética na TV” e nas próprias notícias sobre a mídia.

Com essa gama de dispositivos de crítica midiática (que o autor faz questão de ressaltar que é uma parcela muito reduzida das possibilidades), Braga analisa atentamente os pontos de vistas, as tensões, os objetivos, os procedimentos, os critérios e as interlocuções de cada um, verificando se aquilo a que se propõem enquanto crítica é de fato o que está representado no dispositivo (e pode-ser ver que algumas vezes não é o que acontece). A existência desses dispositivos, a despeito da sua produtividade, já é uma comprovação de que a sociedade enfrenta a sua mídia. Braga constata, além da diversidade de perspectivas nas respostas sociais analisadas, que há uma pluralidade tão grande de mecanismos de enfrentamento que bastaria que aqueles já existentes fossem melhor utilizados para que a sociedade pudesse refletir e aprender mais sobre os processos midiáticos.

Essas reflexões se tornam ainda mais importantes se percebemos os efeitos que uma boa crítica pode causar na sociedade. Um texto crítico que busque orientar mais do que fazer julgamentos pessoais, contribui para que a população entenda os processos daquilo que está sendo criticado e, assim, se torne mais exigente quanto a eles. A crítica da sociedade seria capaz de, a longo prazo, modificar aspectos da própria produção – que, analisando o grau de exigência, tenderia a criar produtos midiáticos mais qualificados. É de grande relevância, portanto, que se busque a crítica da crítica especializada, como Braga faz em seu livro, para que ela não se preocupe apenas em conceituar os produtos como bons ou ruins, nem faça julgamentos meramente impressionistas ou fortemente indignados. A capacidade produtiva nesses casos se torna bastante reduzida, e não se contribui para a aprendizagem da população diante do que está sendo objeto da crítica. Na medida em que se fornece conhecimento “pedagógico”, a crítica é capaz de estimular as próprias percepções de quem a recebe, alimentando o debate e a conseqüente busca pelo aperfeiçoamento. Ao invés de dar respostas definidas, a crítica deve buscar colocar perguntas na cabeça do usuário, estimulando a crítica da sociedade.

Em meio a essas questões que permeiam o seu livro, Braga lembra também que esse sistema de interação sobre a mídia ainda é bastante preliminar no Brasil, em especial no que se refere a crítica de televisão – que corre o risco de ser excessivamente moralista e, portanto, pouco produtiva aos usuários. O estudo da crítica midiática não é importante apenas em termos de conhecimento e de pesquisa. As abordagens de Braga, se levadas em consideração, são capazes de, no mínimo, aperfeiçoar nossa relação com os meios de comunicação. Nesse sentido, os debates sobre a mídia deveriam acontecer em freqüência e profundidade muito maiores do que habitualmente acontece, para então amenizarmos alguns dos reflexos a que fomos levados devido a uma baixa valorização da educação.

Henrique Luiz Fendrich


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