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Moacyr Scliar e a questão da ficção no jornal

Palestra com escritor abriu a 28ª Feira do Livro do Sesc/PR

Com raras exceções, a ficção não funciona no jornal. A opinião é de Moacyr Scliar – ficcionista que escreve em jornal. Isso porque o leitor parte do pressuposto de que os veículos de comunicação impressa, fatalmente, irão divulgar apenas o que é verdadeiro. Scliar teve mostras disso ainda jovem, quando escrevia contos para o jornal de sua faculdade de medicina. Um de seus melhor amigos quis saber se aquela história havia realmente acontecido. O autor negou, era apenas uma invenção. E o amigo não conseguia entender o que levava uma pessoa a desperdiçar o seu tempo escrevendo, na opinião dele, um amontoado de mentiras.

Quando Scliar aceitou o convite para escrever pela primeira vez em jornal, a dificuldade permanecia: o leitor tendia a acreditar em tudo que lia. Havia até quem se complicasse por conta disso. Certa vez, um escritor da Zero Hora disse que havia amarrado o seu cachorro ao pára-choque de um carro. Quando foi usá-lo para ir à praia, esqueceu-se do cachorro. Ao chegar no litoral, o cachorro estava transformado em um tapete. Assim contou o escritor, tirando a história, naturalmente, da sua própria imaginação. O problema foi que, a partir disso, a redação começou a receber as mais diversas manifestações de indignação e repúdio pela atitude do autor – e não bastou ele desmentir a história: já havia se transformado numa verdade.

Embora costumasse ler, Scliar confessa que não estava muito certo de como era escrever em jornal quando aceitou um convite da Zero Hora.  Aos poucos, foi percebendo que havia diferenças entre escrever na imprensa e escrever um livro – a complexa relação com a realidade era apenas uma delas. A linguagem era outra. Scliar entendeu que o texto literário publicado em jornal devia usar uma linguagem acessível – até ela disparidade do seu público leitor. Mas isso não significa uma linguagem simplória: apenas que, em geral, ela devia ser mais sóbria, e até mesmo elegante. Além disso, o escritor precisava estar atento a algumas imposições típicas do jornalismo, como o espaço pré-determinado para o texto (3200 toques para a Folha de São Paulo) e o prazo definido para enviá-lo à redação (se atrasar, o jornal não publica).

Mas Scliar diz que foi aprendendo com os jornalistas, e se diz grato a eles. Na Folha, o escritor faz uma ficção declarada, mas que, ao menos, contém um vínculo direto com a realidade (a citação de uma notícia), o que talvez diminua o estranhamento do leitor por não ler verdades no jornal. Seus textos são classificados como contos, gênero que, para o autor, representa a própria origem da ficção – e que também é muito mais difícil de escrever do que um romance, pois não pode dispor de altos e baixos: ou é todo bom ou é todo ruim. E, ao usar o jornal como motivador para criações literárias, o escritor reforça a opinião de que jornalismo e literatura são capazes de se beneficiar da influência mútua. As interações entre as duas áreas continuarão sendo discutidas nas demais mesas-redondas da 28ª Feira do Livro do Sesc/PR.

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Moacyr Scliar e a literatura na Folha de SP

Em 1993, a Folha de São Paulo convidou alguns escritores para escrever semanalmente um texto literário embasado em uma das notícias publicadas pelo veículo. Moacyr Scliar, a princípio, não entendeu a ideia. “Vocês querem uma crônica, isso?”. Não era. O texto deveria ser ficcional e se aproximar do conto. Embora duvidasse do resultado, Scliar aceitou o convite – e foi o único que se firmou no projeto.

Foto: Beto Scliar/Folha ImagemNas primeiras semanas, era a própria Folha quem escolhia a notícia sobre a qual o escritor deveria tratar. Nem sempre as escolhas do jornal coincidiam com os interesses de Scliar. O escritor costumava receber como tema notícias no estilo “matou a família e foi ao cinema” – assuntos que o faziam se sentir repugnado. Scliar sugeriu, então, que ele próprio fizesse a escolha da notícia.

E, desde então, toda semana o escritor procura no jornal aqueles assuntos que primem pelo inusitado, que possuam interesse humano e que deem mais margem para a imaginação. Embora reconheça a linha tênue que separa fato e ficção, e sabendo que suas histórias têm origem em uma informação concreta, a produção de Scliar é entendida como texto literário – ou seja, destoa do caráter informativo do restante do jornal.

Jornalismo ou Literatura?

A doutora Barbara Heller apresentou em 2005 um trabalho chamado “Jornalismo ou Literatura – A Produção de Moacyr Scliar”, na qual analisa textos do escritor que saíram da Folha de São Paulo e migraram para a coletânea “O Imaginário Cotidiano”. Heller faz uma análise quantitativa de três contos de Scliar, verificando quantos parágrafos tratam do fato noticiado e quantos são criação literária e ficcional.

Sabendo que a motivação inicial da coluna de Scliar, já a partir do convite feito pelo jornal, é a criação literária, entende-se que análises semelhantes sempre irão revelar o que já se sabe – ou seja, que seus textos são amplamente ficcionais. A citação do fato jornalístico varia de tamanho conforme o texto, mas está ali, em todos os casos, apenas como pano de fundo para que o escritor faça um trabalho de ficção.

A pesquisa também se propõe a verificar se Scliar procura divertir ou informar em seus textos. Sabendo que são textos ficcionais, o resultado, naturalmente, evidencia que sua produção não está relacionada com a missão de informar – o que é feito apenas pela citação da notícia que lhe serviu de mote. Heller também considerou que as notícias escolhidas pelo escritor realmente informam, mais do que divertem.

Uma das conclusões obtidas pela pesquisa foi a de que as diferenças entre texto jornalístico e literário são tênues, mas existem – o que também é afirmado pelo próprio escritor. Essas diferenças, no entanto, parecem ser mais sutis do que a simples escolha do tema e suas motivações – uma vez que elas sempre objetivaram a literatura. O escritor se apropria de um fato e seus elementos, mas cria uma nova realidade que é sabidamente ficcional. Talvez as diferenças também digam respeito a outras características, como a própria linguagem do texto ou as expectativas de Scliar com o público diversificado de um jornal.

Moacyr Scliar é uma das atrações da 28ª Feira do Livro do Sesc – Paraná. No dia 06 de outubro, ele dará uma palestra justamente sobre Literatura e Jornalismo, e provavelmente muitas dessas questões se tornarão mais claras, permitindo melhor compreender de que forma as duas áreas interagem para formar o tipo de texto produzido pelo escritor na Folha de São Paulo.

Moacyr Scliar: “Futuro do Romance é se adequar”

Mesa-redonda na Bienal do Livro discutirá se ainda existe espaço para o gênero

Ainda existe espaço para o romance? Essa é a pergunta que os escritores (e romancistas) Carlos Heitor Cony e Moacyr Scliar irão discutir na noite do próximo sábado, dia 29/08. Os dois autores estarão na mesa-redonda “O Romance Morreu, Viva o Romance”, uma das atrações da I Bienal do Livro de Curitiba. Para Scliar, o romance, que viveu o seu auge no século XIX e início do século XX, não é uma forma superada, desde que se adapte ao cenário atual: “A narrativa longa continua sendo importante, porque corresponde a uma necessidade psicológica das pessoas, mas o romance terá de adequar-se às novas realidades editoriais e aos novos hábitos de leitura”. Entre essas mudanças, Scliar considera que não cabem mais os romances gigantescos, e que os temas precisam se relacionar com a realidade vivida pelas pessoas. Plataformas como a internet, nesse sentido, também precisariam ser consideradas.

Serviço: Mesa-Redonda “O Romance Morreu, Viva o Romance”, com Carlos Heitor Cony e Moacyr Scliar, moderação de Márcio Renato dos Santos.

Quando: 29/08 das 19h30 às 21h30

Onde: Auditório Principal da Expounimed – Curitiba

Endereço: R. Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza 5300 – Campo Comprido

Programação da Bienal: http://www.bienaldolivrocuritiba.com.br/


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