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Domingos Pellegrini e a nova literatura II

Durante a mesa redonda que participou na I Bienal do Livro de Curitiba, dia 02/09, o escritor paranaense Domingos Pellegrini reforçou o que havia dito em entrevista a este blog sobre as possíveis mudanças na literatura para este milênio.  Pellegrini acredita que o livro vai “mestiçar”, mas entende que alguns princípios são imutáveis e continuarão orientando a produção literária: a percepção, a composição, a singularidade e a comprovação – além do talento, que continuará sendo determinante. O autor entende que os “novos” formatos renovam os antigos, mas não os abandonam totalmente. Por conta disso, o escritor do novo milênio precisaria ter o cuidado para não cair na “radicalização” do novo e tampouco estacionar na “tradicionalização”. A possível solução seria, portanto, inovar dentro da tradição. E o futuro continua sendo imponderável e imprevisível.

Domingos Pellegrini e a nova literatura

O novo milênio se aproxima do fim de sua primeira década, mas ainda se discute as inovações e novas regras que ele pode trazer para a literatura. O escritor Domingos Pellegrini, uma das atrações da I Bienal do Livro de Curitiba, vê com desconfiança as perspectivas desse novo cenário. Para ele, sempre que se tenta precisar regras ou características inovadoras para a literatura, elas são desmentidas pela realidade. “O novo milênio apenas confirma que a literatura continuará imune a regras e previsões, pois, como tudo que é humano, é essencialmente contraditória”, explica.

Prova disso é que há alguns anos Pellegrini recebeu de editoras o aviso de que os livros juvenis deveriam ter no máximo 60 páginas, pois, acreditava-se, os jovens estavam lendo cada vez menos e, portanto, diminuir o tamanho das obras era essencial para manter as vendas. O que os editores não previam, no entanto, era o sucesso que a série Harry Potter iria alcançar, com suas edições que possuem bem mais do que 60 páginas. Pellegrini lembra ainda que há outros livros grossos, como o “Crepúsculo”, que continuam fazendo sucesso entre os jovens. A suposta renovação trazida pelo novo milênio também não impediu que essas mesmas obras se valessem de recursos antigos da literatura – como a figura do vampiro.

O escritor também entende que uma narrativa pode ser inovadora em termos de linguagem, mas retrógrada na visão de mundo – e vice-versa. “Os Sertões, de Euclides da Cunha, tem uma visão ética renovadora, mas a linguagem é solene, às vezes até barroca”, acredita. Essas contradições nasceriam diretamente da natureza humana, e tornariam mais complicado o “baralho literário”, como chama o autor.

Contraditório também é o adjetivo que Pellegrini usa para falar das inovações trazidas à literatura pela internet. O escritor entende que, ao facilitar a divulgação de “conteúdo”, a internet também acaba ressaltando a falta de conteúdo da maioria dos textos, e assim evidenciando a necessidade de seletividade. Essas questões fazem com que o escritor acredite que o novo milênio é apenas um marco no calendário, e que não corresponde, necessariamente, à mudanças efetivas na vida real e na literatura. “A literatura do novo milênio deverá continuar obedecendo a antiquíssimos princípios: quem quer se comunicar mais, deve ser claro; quem quiser se expressar sem almejar comunicação plena, poderá ser menos claro quanto mais expressivo”.

Como exemplo, Pellegrini  cita o livro “A Luta Corporal”, de Ferreira Gullar, em que o poeta se tornou tão expressivo que ficou incompreensível, criando uma linguagem específica que só ele podia entender. Mas mesmo o conceito da simplicidade e da clareza na literatura pode ser contraditório: “Também temos os tantos autores que, de tão claros e simples, tornam-se dispensáveis”, finaliza.

Domingos Pellegrini fará parte da mesa-redonda “Novo Milênio, Novos Leitores, Inova Literatura”, na I Bienal do Livro de Curitiba. O debate acontecerá às 19h30 da próxima quarta-feira, 02/09, no auditório principal da Expo Unimed. Além de Pellegrini, a mesa também contará com a participação dos escritores Carlos Herculano Lopes e Clarah Averbuck.


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