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Hélio Leites – Um Ex-Estranho de Leminski

O crítico Alfredo Braga está indignado com tamanha repercussão. Diz ele que o nome virou inclusive verbete em dicionários de arte. Fala ainda em “vastos ensaios em jornais especializados”, além de reportagens, entrevistas e matérias das mais diversas, em todos os meios de comunicação. E sempre dizendo as mesmas coisas. Há algumas décadas, essas pessoas eram vistas como excêntricas, inconvenientes, malucas. E hoje, quem diria, são temas para “ensaios fotográficos” e “teses acadêmicas”. Assim esbraveja Alfredo Braga, que critica ainda uma suposta “unanimidade” em “certos ambientes cultos da capital paranaense”. E como Braga o definiria, afinal? “Um multiartista a procura de uma tese”, declarou. Um legítimo representante dos ecos de velhas classificações como “belas-artes” e “artes-menores”. “Parecia que essa infrutífera discussão estava esvaziada mas, continua, persiste… ”

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Hélio Leites nasceu José Hélio Silveira Leite. E nasceu na Lapa, cidade grandiosa: a quarta maior cidade em extensão do Paraná, dona do maior conjunto arquitetônico preservado, maior produtora de fruta de caroço, dona de grande potencial agro-pastoril e com um passado repleto de fatos heróicos, além de ter sido berço de cidadãos notáveis no estado. Pois Hélio não se importou com tanta grandiosidade, e se tornou artista miniaturista: faz a sua arte de coisas pequenas como um botão, uma caixa de fósforos, um palito de sorvete, uma casca de pinhão, uma latinha de sardinha… e se torna, assim, um “significador de insignificâncias”.

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Essa foi a denominação que Tio Lema, ou melhor, Paulo Leminski, encontrou para descrever Hélio Leites. É o cartão de visitas estético do artista até hoje. Saiu num artigo de jornal em Curitiba no dia 29 de março de 1986. Tio Lema queria que o mundo conhecesse a arte de Hélio. Sim, porque não restava dúvidas que era possível fazer arte com objetos, a princípio, desprezíveis: “… qualquer material pode servir de suporte para a experiência artística”. Destacava ainda a sagacidade do artista, capaz de mostrar o que ninguém mais percebia, com variados jogos de palavras. Visivelmente encantado, Leminski previa um grande futuro para Leites: “Ontem, o botão. Hoje, o assobio. Amanhã, o mundo”.

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– Por que botão? E por que não?

Sempre que conta a história de quando lhe perguntaram o motivo de se dedicar a um objeto tão pequeno como um botão, Hélio tenta provar a sua importância: sem conhecer uma coisa que está na sua camisa, é impossível conhecer o que acontece a um quarteirão de distância. Em 1984, quando estava em São Paulo, surgiu a idéia de criar o Museu do Botão. O objetivo era contar a história da humanidade através dos botões. Cada botão tem a sua história, afinal. É um museu portátil, cabe numa mala, cabe no seu jaleco, e acompanha Hélio por onde quer que vá. Veio, portanto, para Curitiba com ele. E também vai para escolas, participando de programas educativos. Na mesma linha, surgiu a Assintão – Associação Internacional de Colecionadores de Botão. Isso fez com que, em agosto de 1990, Hélio participasse da primeira Bienal Alternativa de Poesia Visual, na Cidade do México.

E o botão continuou gerando criações. No carnaval de 1991, em parecia com seus amigos artistas, surgiu a “Ex-cola de Samba Unidos do Botão”. Como não podia deixar de ser, é uma escola minimalista, com carros alegóricos minúsculos, feitos de sucatas diversas. A bateria, naturalmente, é feita com caixas de fósforos. Desde então a escola tem se apresentado nos carnavais curitibanos. Carlos Careqa compôs a maior parte dos enredos, normalmente envolvendo temas como ecologia, política e cultura. Talvez, nas palavras de Hélio, seja a menor escola de samba da América Latina.

Já o assobio, vem do Fiu-Fiu Sport Clube. Outra criação de Hélio para juntar todos os assobiadores. Pensou-se, inclusive, em criar um “assobiódromo”. O arquiteto Key Imaguirre, assobiador nas horas vagas, chegou até a fazer uma maquete. O objetivo era, justamente, o de ter um lugar específico para se assobiar, sem incomodar ninguém. Até o nome já estava definido: “Assobiódromo Fernando Sabino”. Hélio e seus amigos, entre eles outros artistas populares, como Efigênia Rolim e Kátia Horn, já fizeram várias “Passeatas Assobiadas” pelo centro de Curitiba. Um motivo recorrente para elas é anunciar, através de assobios, a chegada da primavera.

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Cortar o cabo de uma vassoura e fazer dele um boneco. Essa é uma das lembranças mais remotas que Hélio tem sobre arte. Certa vez, na escola, uma professora pegou uma bola de argila, tirou o miolo e fez uma caneca. A sobra, enrolou na mão e fez uma asa. Essa foi uma das lições sobre arte mais importantes para Hélio.

Se ele ainda não ganhou totalmente o mundo, conforme a profecia do Tio Lema, já pôde viver e mostrar a sua arte em muitas cidades do Brasil. Passou a infância em Apucarana, e morou também em São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro… e veio dar as caras em Curitiba há quase três décadas, morando no Pilarzinho. Hoje, já é um personagem popular da cidade. Desde 1974, já participava de exposições nas cidades por onde morou, e também Santos, Londrina e Goiânia. Em Apucarana, ganhou o Prêmio Aquisição, em 1975.

Mas nem sempre se viveu exclusivamente da arte. Formado em economia, Hélio Leites foi bancário por 25 anos, trabalhando no Banco do Estado de São Paulo. “Carimbava cheque devolvido de pessoa que eu não conhecia”, como ele mesmo diz. Nas horas vagas, pintava quadros em acrílico. Eram quadros grandes, que não podiam ser levados com ele por causa do tamanho. Cursou xilogravura, monotipia, cerâmica, desenho, colagem, e frequentava galerias de arte, a fim de manter contato com os artistas locais. Um dia, decidiu que não era aquilo que queria para sua vida. Largou então a vida bancária e passou a se dedicar à arte. Mas não virou um artista plástico, o que é muito difícil e concorrido. Até tentou, mas por fim decidiu se tornar um artista popular, profissão que não precisa da crítica de arte patrulhando.

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Até porque, o crítico de arte – profissão em extinção, ou não? – é o único artista que não suja as mãos para fazer o seu ofício. Quem fala agora é o próprio Hélio Leites, em resposta a Alfredo Braga. Como bom lapeano, Hélio já decidiu o destino da crítica de Braga: vai ser publicada de cabeça pra baixo na sua autobiografia, como é costume fazer com as críticas negativas. Encarecidamente, ele pede desculpa por ter sido objeto de tanto destaque. E ainda bem que Braga não teve acesso às matérias feitas pela Folha de São Paulo, pelo Jornal do Brasil e por jornais internacionais. “Garanto que não resistiria e mudaria de cidade”.

Braga se preocupou tanto com a “carreira” de Leites que se esqueceu do “conteúdo” de sua arte. Acusa Leites de ser uma invenção de Leminski. Pois o artista rebate: “Parabéns, você acaba de desinventá-lo”. E quanto às pessoas repetirem sempre as mesmas coisas sobre sua arte, Hélio constata: é da repetição que nascem os clássicos.

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Era um domingo, 21 de janeiro de 1951, quando Dona Maria Emília deu à luz o menino José Hélio. Esse dia da semana continua cheio de significados para ele. Todo domingo, das 09h às 14h, acontece a Feira do Largo da Ordem, ou a Feira Hippie, ou a Feira de Artesanato, ou o Mercado das Pulgas. Ali se vende os mais variados produtos artesanais, de madeira, de cerâmica, de porcelana, de vime… e de caixas de fósforos, por exemplo. Ao contrário da maioria das barraquinhas, que normalmente estão atendendo desde o começo do horário, Hélio chega por volta das 09h30. Até terminar de expor os seus produtos na barraca e começar a atender, já são quase 10h. Ao seu lado, uma moça já está vendendo algumas sandálias que utilizam látex, mas sem muito sucesso. Em frente, um homem de meia idade também já tenta convencer as pessoas a comprar estátuas de Santo Antônio, feitas em madeira petrificada. Pouca gente pára nessas barraquinhas.

Hélio parece bem à vontade. Dessa vez veste um macacão azul, típico de marceneiro, e não o seu costumeiro jaleco multiuso, cheio de botões, adesivos e pequenos objetos variados. Na cabeça, um inseparável boné. Se por algum instante ele o tira, o resultado é sempre o mesmo. Quem está passando próximo da barraca comenta:

– Você viu só o cabelo dele?

E sai dando risada. Ora, Hélio não corta a parte frontal do seu cabelo, de modo que ali nasceu uma espécie – dizem os maldosos – de “crista”. É um cabelo branco que cresce desordenamente para o lado e para cima, e apenas nessa parte, já que o resto é cortado normal. Hélio nem pensa em cortar. Diz que é como mandar um travesti cortar os “pendurado” dele. Não irá cortar jamais.

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Aramis Millarch foi um dos críticos que exaltou Hélio no final da década de 80 e começo da década de 90, quando a sua popularidade aumentou em Curitiba. Chamou-o de “simbolo afetivo (e vivo) desta Cidade sem Portas”, “permanentemente bem-humorado, sensível, múltiplo, animador e artista minimalista”, “presença terna e amiga”, além de outros adjetivos sempre elogiosos.

Foi a partir dessa época que se começou a prestar a atenção nos artistas populares de Curitiba que passavam pela Feirinha do Largo – antes, tradicionalmente taxados de loucos.

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O surpreendente humor, somado à figura insólita de Hélio, mais os seus produtos criativos e a história poética que conta sobre eles, e os vários trocadilhos, fazem com que, em pouco tempo, a barraca seja uma das mais concorridas daquele espaço da feirinha. Um grupo de senhoras resolve parar. Hélio começa a descrever seus objetos.

Uma mola com um boneco preso em cima. É São Longuinho, para as pessoas que não puderem dar os três pulinhos. Às vezes elas pulam, quebram a perna, e então o prejuízo acaba sendo maior do que o do objeto perdido. Pois então usa-se um boneco próprio para isso. As senhoras, encantadas, dão boas risadas.

O indicador de TPM. Com palitos de sorvete, devidamente pintados, Hélio criou uma arara. Quando a mulher estiver naqueles dias, bastar colocar a arara na camiseta, como botton, e todo mundo vai saber como ela está se sentindo. Hahaha, dizem as senhoras.

Uma seringa. Dentro dela, um boneco de Santo Antônio, no comprimento exato. “Injeção de ânimo”, explica. Quando as mulheres começam a rir de novo, Hélio emenda: “Tá vendo? A pessoa vê isso aqui, dá risada e então esquece dos seus problemas, esqueça da doença.” Se esquece também da raiva, a doença que mais mata no mundo.

E contra ela, Hélio apresenta um “vodu light”. Um bonequinho para ser malhado antes de dormir. A pessoa escreve o nome da pessoa que está com raiva, malha o boneco até cansar, pegar no sono e dormir. No outro dia, vai estar rindo da raiva, e então pode apagar o nome da pessoa. “Parabéns”, dizem algumas das senhoras mais entusiasmadas.

Há ainda obras grandiosas – não em tamanho, mas em detalhes – como “As Duas Mortes de São Sebastião” e a “Cama de Van Goch”, com cenários que espantam os visitantes, construídos exclusivamente com produtos “insignificantes”, como as caixas de fósforo. O famoso “Sermão aos Peixes” é feito com uma lata de sardinha. Origem semelhante têm todos os objetos. Não são cenários imóveis. Hélio coloca o dedo em alguma parte, faz um movimento, e os personagens se mexem.

– Você é um gênio!

Hélio parece não dar muita atenção ao elogio. Parte para outro produto, uma outra miniatura que também tem uma história por trás, uma história cheia de trocadilhos, uma poesia qualquer, outra coisa que também vai deixar todos admirados.

– Qual é o seu nome?

A senhora quer saber como se chama aquele artista exótico que viu na Feira do Largo, talvez para poder contar a outras senhoras.

– Hélio…

Diz apenas o primeiro nome, e diz como quem cochicha, como alguém que não está a fim de revelar a sua identidade. As senhoras ainda murmuram outra vez coisas como “muito inteligente” para Hélio e “que bonitinho” para suas criações, e fazem, então, um movimento para ir embora. Mas Hélio é mais rápido, e antes disso começa a falar de outro dos seus artigos, e fala de forma tão veemente, e desperta tanto a curiosidade, que elas ainda ficam mais um pouco.

Só que não compram nada, naturalmente. Quando saem da barraca de Hélio, elas param numa outra que vende doces de abóbora – e isso, talvez tenham comprado. A arte, mesmo aquela feita em miniatura, mesmo a arte feita com material desprezado, tem um preço. Se, por um lado, o indicador de TPM custa cinco reais, obras mais complexas podem chegar a R$ 150. Uma rolha que passar pelas mãos de Hélio e for trabalhada, pode custar R$ 50. E há quem diga que não é arte.

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Paulo Polzonoff Jr. não considera Hélio um artista plástico. Mais do que isso, diz que ele é cria “deste poeteco de bar chamado Paulo Leminski”. Segundo ele, após ter publicado o texto “O Botoneiro Equivocado”, argumentando o motivo de não considerar aquilo arte, recebeu uma carta de Hélio “pontuada de ofensas pessoais”. Em situação semelhante, o artista teria se unido a Domingos Pellegrini e mandando uma carta ao jornal em que o crítico trabalha. O artista popular é, para Paulo, uma aberração da nossa cultura, criado por Ariano Suassuna.

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Mas as crianças nada querem saber sobre essa discussão do que é arte e do que não é. São elas que melhor recebem os trabalhos de Hélio Leites. Na verdade, elas são constantemente reprimidas pela nossa educação: “não mexa, não encoste, não toque, não quebre”. Quando uma criança, surgida não se sabe da onde, aparece na barraca de Hélio e tenta pegar com a mão um de seus bem cuidadosos trabalhos, ele não a impede. Mas a alerta, com voz calma, sem parecer uma censura: tem que pegar com cuidado.

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“É a minha roça”, diz Hélio sobre o balcão com seus produtos. Tem até espaço para as ervas daninhas, seguindo ensinamentos de São Francisco de Assis, Não é possível saber com certeza o que é performance e o que não é. Mas os resultados que causa no público, em geral, são sempre os mesmos. Uma moça sorridente pega um dos objetos e pergunta qual a história por trás dele. Como já ouviu as outras, ela está interessada em saber também qual é a graça, qual a poesia, escondida por atrás daquele estranho material.

Hélio explica, repetindo a história que acabara de contar. E fica indeciso sobre qual o próximo produto que vai falar. Um carioca aparece, e quer conversar: tudo o que Hélio fala, ele comenta, como alguém que quer conversar, como se também fosse um artista e precisasse ser ouvido, como se os outros estivessem a fim de ouví-lo também. Figura recorrente nas suas criações, Hélio mostra um ratinho de biblioteca, lendo rapidamente um livro. “Sabe por quê? Porque o livro é sobre queijo. A gente tem que fazer isso com as crianças, elas têm que ler aquilo que elas gostam”. Hélio diz que não foi ele que decidiu que devia contar histórias. Foi o mundo. Um mundo poeticamente correto.

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