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A crônica, segundo Affonso Romano de Sant’Anna

Escritor comenta situação do gênero e sugere que ele pode se desgarrar do jornal

por Henrique Fendrich

A crônica é um gênero singular que geralmente escapa de classificações teóricas. Jornalismo e literatura tentam encaixá-la dentro de seus conceitos, mas nem sempre dão conta de explicar a diversidade de textos que dela fazem parte. À margem do debate acadêmico, a crônica conseguiu se tornar um dos gêneros mais populares no Brasil – a tal ponto que se reivindica para ela um caráter nacional. Ainda existe, no entanto, quem questione a sua capacidade de sobrevivência fora das páginas supostamente efêmeras do jornal.

O Pasquim Cultural tentou flagrar o gênero fora de seus estereótipos e entrevistou Affonso Romano de Sant’Anna, que, entre suas atividades literárias, atualmente é cronista no Estado de Minas e Correio Brasiliense. O escritor estará em Curitiba no dia 09/10 e participará de uma mesa-redonda sobre o gênero, em companhia de Ignácio de Loyola Brandão. A atividade faz parte da programação da 28ª Feira do Livro do Sesc/PR.

Pasquim Cultural: A crônica continua com a missão de suavizar o noticiário convencional? Qual o espaço do gênero na imprensa atual?

Affonso Romano de Sant’Anna: Há vários tipos de crônica. A que visa “suavizar” é um dos tipos. Era assim no passado. Machado dizia que o cronista era um beija-flor. Hoje a crônica é mais do que isto, é também “participante”. Se alguma contribuição dei ao gênero, foi trazê-lo, a partir dos anos 80, para perto da realidade, não o restringindo ao lirismo e ao episódico. O livro “Nós os que matamos Tim Lopes”, sendo seleção de crônicas publicadas nos últimos 20, 30 anos, é, por exemplo, a história da violência no país. Já não tem nada de Rubem Braga, Fernando Sabino ou Drummond. Já “Tempo de delicadeza”, mais recente, é dentro dessa tradição.

PC: Existem características ideais para a crônica? A variedade de estilos entre os cronistas permite que se chegue a uma conclusão sobre o que é a crônica?

ARS: Fernando Sabino contava estórias. Rubem fazia lirismo, Paulo Mendes Campos fazia experiências formais. Posso falar de mim. Eu trabalho de várias formas, para evitar o monoestilo: crônicas sobre episódios do cotidiano, sobre memórias, sobre ideias, sobre política, usando diálogos, narrações, descrições, enfim, intercalando estilos e gêneros diversos, tanto para descansar o leitor (alvo final) quanto para exercitar outros ângulos de visão. Mas ultimamente, por exemplo, tenho tentado reunir as crônicas de acordo com temas. Depois daquele sobre a “violência” e o outro sobre “delicadeza”, estou entregando um livro “Ler o Mundo”, seleção de crônicas sobre a questão da leitura, livros, bibliotecas.

PC: Críticos literários como o Massaud Moisés duvidam da sobrevivência do gênero fora do jornal ou da revista. Como você enxerga a transição das crônicas para o formato do livro?

ARS: Volta e meia recebo livros de crônicas de pessoas que não as publicam em jornal. É como se fossem contos, poemas inéditos. Claro que o jornal a revista são suportes tradicionais, mas hoje a internet está aí. Vai ver que a crônica, no Brasil sobretudo, pode desgarrar-se do jornal.

PC: O gênero conseguiu uma autonomia para isso? A internet possibilita que novos escritores divulguem seus textos com maior facilidade.

ARS: É um dos caminhos novos. Passando no teste da internet, no entanto, o autor quer mesmo é chegar ao livro.

PC: O jornal é lido por pessoas com os mais diversos interesses. Como lidar com a diversidade desse público?

ARS: O cronista tem que saber que não agrada sempre. Tem dia que atende ao público A, depois ao B, depois a C e até ao Y. Não se pode atingir o alvo o tempo todo, mesmo porque o alvo é móvel, e o cronista também.

Crônicas de Affonso Romano de Sant’Anna podem ser acessadas aqui.

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A crônica de Carlos Herculano Lopes

Carlos Herculano Lopes é mineiro, e talvez por isso quase tenha passado despercebido na I Bienal do Livro de Curitiba. Na mesa-redonda que participou, sobre literatura no novo milênio, foi ofuscado pela elegância de Domingos Pellegrini e pela impetuosidade de Clarah Averbuck. Mas houve espaço para um debate paralelo sobre a crônica – que dificilmente é tema de discussões, mas sempre acaba surgindo durante a conversa.

Lopes escreveu em torno de 600 crônicas para o Estado de Minas, várias delas depois lançadas em coletâneas como “O Pescador de Latinhas”, “O Chapéu do Seu Aguiar”, e outras. O autor foi criado no jornalismo antigo, ainda na máquina de escrever. Acha fascinante as novas tecnologias, e se admira com as possibilidades que elas oferecem para o gênero da crônica: “A resposta do leitor é rápida. Pouco tempo depois do jornal sair, recebo emails comentando”.  E se já passar do meio-dia e ninguém tiver comentado, não precisa se iludir: ninguém irá comentar mesmo.

Para o jornalista, não é possível precisar do que o leitor irá gostar na crônica – normalmente, uma passagem que o próprio escritor não achava tão importante é o que chama mais a atenção do leitor e o motiva a comentar. E isso torna o gênero ainda mais atraente. Mas Lopes não pensa no leitor quando escreve, e também sente a dificuldade natural de quem precisa escrever respeitando uma periodicidade: a falta de assunto. “Mas em Minas, as crônicas com maior sucesso são as que falam de casos”. Uma vez encontrado o mote, Lopes escreve a sua crônica em 40 ou 50 minutos – o que, na verdade, é um tempo parecido com a duração do gênero nas páginas do jornal.

A casa de vidro de Miguel Sanches Neto

Miguel Sanches Neto lê mais do que escreve – e não escreve uma coisa só, mas, como Leminski, pratica todos os gêneros provincianos. Entre eles, a crônica, publicada semanalmente em um jornal de Curitiba. É o único gênero em que Sanches não precisa alcançar um estado de indignação para poder escrever. Quando escreve um romance ou um conto, a sua literatura nunca se realiza em temperatura morna. Mas a crônica segue uma periodicidade que independe da disposição de seu autor. E, ainda assim, o gênero tem a preferência de Sanches. “A crônica é o espaço literário mais saboroso. É o gênero em que me sinto melhor”, admite.

Para o escritor, não existe distanciamento entre vida e literatura na crônica. A cumplicidade entre escritor e leitor também aumenta. “Na crônica, minha casa se torna de vidro. Todos conseguem enxergar lá dentro”. E o que eles enxergam? Aquilo que normalmente se espera de uma crônica: os assuntos aparentemente irrelevantes do cotidiano, “os pequenos nadas”, que passariam despercebidos se não fosse a ação do cronista. No caso específico de Sanches, a sua família fornece grande parte dos assuntos que aborda. O escritor, ao procurar assuntos que, semanalmente, deve transformar em crônica, lança um olhar mais intenso para a sua própria realidade. E, ao publicar seu texto, ela passa a fazer parte também da vida de seus leitores – a tal ponto que muitas pessoas lhe perguntam sobre seus filhos e sua esposa, pessoas que não conhecem senão pelas suas crônicas.

Mas apesar de abordar temas próximos e que envolvem pessoas reais, a crônica de Sanches não é livre de certas artimanhas ficcionais. “Eu não abro mão da mentira. A minha crônica tem que funcionar como literatura, e não biografia”. Embora o sentido de muitas histórias seja verdadeiro, o escritor usa a imaginação para preencher alguns detalhes daquilo que está contando. O leitor se vê confuso e não sabe mais até que ponto acreditar no que lê. E, às vezes, o cronista conduz o leitor de tal maneira que ele só descobre ao final do texto que se trata de uma mentira – como em uma crônica sobre uma casa de praia… em Ponta Grossa. Em outras vezes, no entanto, Sanches escolhe utilizar a terceira pessoa na narrativa, para mostrar abertamente que o assunto é ficcional, e não biográfico.

Pois assim foram sendo feitas as crônicas de Sanches, até que um dia – aproveitando que já havia publicado romances, e que então podia ser aceito pelo mercado editorial em outros gêneros – decidiu reuni-las sob a forma de um livro – transição geralmente problemática. “Existem crônicas que envelhecem uma semana depois de publicadas”, reconhece. Por isso, o cronista se mantém atento e seleciona para a sua coletânea apenas aqueles textos que, na sua ótica, não possuam assuntos excessivamente datados. Muitas vezes, é apenas depois de publicar o livro que o escritor percebe se fez a escolha correta. Sanches escreveu uma crônica na época das denúncias sobre o leite adulterado. Gostou do resultado e quis que fosse registrada em livro. Só depois se deu conta do equívoco: seria preciso uma nota de rodapé com pelo menos cinco linhas para poder situar o leitor.

As crônicas escolhidas são, portanto, aquelas com temática menos factual. Aquelas que falam de coisas que Sanches observa na vida reclusa que leva em Ponta Grossa. Coisas que dizem respeito à sua própria família, mas que, depois de publicadas, são vistas pelo mundo. E o mundo então se torna íntimo:

– E a família, como vai? A Juliana? A Karine? E o pequeno Antônio? Aprendeu mais alguma palavra?


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