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O romance de deformação de João Gilberto Noll

À Manoel da Costa Pinto coube o mérito de sugerir, na orelha do livro, que “O Quieto Animal da Esquina” fosse classificado como “romance de deformação”. A obra de João Gilberto Noll, nesse sentido, representaria um contraponto ao tradicional romance de formação, em que o processo de desenvolvimento do personagem, desde a sua infância ou adolescência, é descrito de forma pormenorizada até que ele cresça e se torne mais maduro. Em Noll, o personagem não amadurece.

A história se inicia por uma juventude já fragmentada em suas relações sociais. Seu pai havia abandonado a família e ele morava com a mãe num subúrbio de Porto Alegre, enquanto procurava emprego e fazia poemas. Um dia foi acusado de estupro e foi levado para a prisão. De lá, foi para uma clínica correcional, até virar agregado numa família de alemães. Todo esse processo não representa uma grande transformação no personagem, embora toda mudança tivesse a sua dose de ilusão.

Assim é que ele credita até mesmo à cadeia a missão de mudar a sua vida de forma positiva. É com indiferença e quase com esperança que ele vislumbra as suas possibilidades de transformações ao ser preso. A situação se repete quando é transferido para a clínica, e encontra seu auge quando passa a morar com os alemães. Admirado com tudo que representava morar numa casa como aquela, e convivendo com aquelas pessoas, o personagem pergunta a si mesmo se aquilo tudo irá realmente durar muito tempo, e até que ponto isso fará com que ele se transforme e encaminhe o seu destino.

Mas o tempo vai passando e, como diz Pinto, a sua experiência “não leva ao aprendizado ou à transformação – mas a um mergulho metódico em relações sociais e afetivas deterioradas”. A ilusão de que a família alemã representa algo essencial para seu crescimento se esvai à medida em que o tempo passa e os acontecimentos se sucedem. As pessoas que conviviam na casa (uma propriedade rural e isolada) se tornaram estranhas, estão deslocadas dentro do seu destino, e só encontram sua razão de ser – na distorcida visão do personagem – porque futuramente poderão representar uma mudança na sua vida. São, em suma, peças utilitárias, umas mais que as outras, e todas, ao final, serão fatalmente descartadas, quando enfim a transformação for realizada e ele não precisar mais delas. É nessa esperança que o personagem parece se apegar.

A busca desse personagem é por um estado em que as coisas poderão, finalmente, serenar, e assim talvez ele possa repousar e ser aquilo que realmente pensa ser. É um instante fugidio que, na verdade, ele sequer tem noção de como conseguir. Fosse possível encontrá-lo, e talvez o personagem errante poderia enfim se encontrar e amadurecer. O único desenvolvimento fatal que não lhe escapa é o físico. Consola-se, então, repetindo para si que, afinal, agora era um homem – e que não estava apaixonado, como se isso pudesse representar todo o seu crescimento. Impotente, e vendo frustradas suas esperanças de conforto, o homem se deixa levar pelo universo estranho que passou a ser seu – e que, afinal, ao menos lhe era alguma coisa de seguro.

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A diferença entre crônica e conto

Houve uma vez em que uma grande empresa de cartões de crédito resolveu organizar uma antologia de crônicas de amor. Com esse objetivo, pediu que alguns dos mais célebres cronistas brasileiros escrevessem um texto especialmente para a coletânea. Entre os escolhidos estava Ignácio de Loyola Brandão. Feita a crônica, ela foi enviada à empresa e chegou às mãos do seu diretor – o homem responsável por avaliar se ela realmente tinha condições de fazer parte da antologia. Em um determinado momento, o diretor franziu a testa. Mas continuou a leitura até o final, quando então concluiu:

– Isso aqui não é uma crônica! Onde já se viu crônica com diálogo?

A crônica que não era crônica foi recusada e reenviada ao seu autor para que a consertasse. Embasbacado com o argumento do diretor, Ignácio de Loyola Brandão resolveu o problema da seguinte maneira: trocou os diálogos por frases entre aspas, e manteve o resto do texto inalterado. E então, realmente, seu texto se transformou numa crônica e pôde ser aceita pelo exigente e literato diretor. “Foi aí que descobri a diferença entre a crônica e o conto”, brinca Brandão.

Jornalismo Cultural é tema de debate no Sesc/PR

Almir de Freitas e Daniel Piza discutiram as possibilidades que a área oferece

Habitualmente, os cadernos e revistas de cultura tentam ir além da informação factual. Nas palavras de Almir de Freitas, editor-sênior da Revista Bravo!, o espaço ideal do jornalismo cultural é justamente aquele que oscila entre o imediato e o que perdura – um equilíbrio que geralmente necessita de constantes adequações. O próprio discurso dos textos dessa área deve evitar o tom hermético, pois fatalmente afastará o público não-iniciado. Ao mesmo tempo, não pode se tornar excessivamente massificado. Freitas acredita que é preciso encontrar o campo de atuação exato, e saber dialogar com as exigências que surgirem. “É preciso negociar com o mercado sem abrir mão dos seus pressupostos”. O aprendizado dessa negociação tende a facilitar o trabalho na área – que, embora apreciada, não é das mais fáceis e rentáveis.

O jornalista Daniel Piza tem a mesma opinião. Entende que, apesar do pessimismo, existem manifestações no jornalismo cultural que continuam capazes de mostrar o seu vigor. Para ele, o caderno cultural é capaz de dar identidade ao jornal e criar vínculos afetivos com seu leitor – além de ter o mérito de fazê-lo pensar. Curiosamente, os cadernos culturais costumam ser os mais lidos dos grandes jornais, e os seus colunistas são os que conseguem o maior destaque. Ou seja: “Ainda é possível fazer isso e conseguir a adesão do leitor”. Mas existem alguns caminhos que permitem fazer isso com maior qualidade.

Piza acredita que a maioria das publicações culturais, atualmente, são mornas, com poucas críticas negativas e conflitos de idéias. Os livros recebem apenas resumos com alguns adjetivos e poucas ressalvas. E existe ainda a constante tentação de aderir ao mundo das celebridades. No meio de tantas manifestações culturais, a escolha do que deve ser analisado também representa um risco. “É uma exigência do ofício, mas o jornalista deve abrir mão das coisas que não acredita”, defende Freitas. O crítico não deve apenas endossar o que acha que fará sucesso, e nem achar que sabe exatamente o que o leitor quer ler. Para Piza, um dos princípios do jornalismo também serve para a área cultural: contestar a opinião vigente, os mitos dominantes.

O aumento do número de eventos discutindo jornalismo e literatura também é visto como algo positivo, ainda mais considerando que os cadernos culturais estão retomando a sua vocação – após alguns excessos nos anos 90. As interações entre jornalismo e literatura continuarão sendo discutidas até sexta-feira na 28ª Feira do Livro do Sesc/PR.

Moacyr Scliar e a questão da ficção no jornal

Palestra com escritor abriu a 28ª Feira do Livro do Sesc/PR

Com raras exceções, a ficção não funciona no jornal. A opinião é de Moacyr Scliar – ficcionista que escreve em jornal. Isso porque o leitor parte do pressuposto de que os veículos de comunicação impressa, fatalmente, irão divulgar apenas o que é verdadeiro. Scliar teve mostras disso ainda jovem, quando escrevia contos para o jornal de sua faculdade de medicina. Um de seus melhor amigos quis saber se aquela história havia realmente acontecido. O autor negou, era apenas uma invenção. E o amigo não conseguia entender o que levava uma pessoa a desperdiçar o seu tempo escrevendo, na opinião dele, um amontoado de mentiras.

Quando Scliar aceitou o convite para escrever pela primeira vez em jornal, a dificuldade permanecia: o leitor tendia a acreditar em tudo que lia. Havia até quem se complicasse por conta disso. Certa vez, um escritor da Zero Hora disse que havia amarrado o seu cachorro ao pára-choque de um carro. Quando foi usá-lo para ir à praia, esqueceu-se do cachorro. Ao chegar no litoral, o cachorro estava transformado em um tapete. Assim contou o escritor, tirando a história, naturalmente, da sua própria imaginação. O problema foi que, a partir disso, a redação começou a receber as mais diversas manifestações de indignação e repúdio pela atitude do autor – e não bastou ele desmentir a história: já havia se transformado numa verdade.

Embora costumasse ler, Scliar confessa que não estava muito certo de como era escrever em jornal quando aceitou um convite da Zero Hora.  Aos poucos, foi percebendo que havia diferenças entre escrever na imprensa e escrever um livro – a complexa relação com a realidade era apenas uma delas. A linguagem era outra. Scliar entendeu que o texto literário publicado em jornal devia usar uma linguagem acessível – até ela disparidade do seu público leitor. Mas isso não significa uma linguagem simplória: apenas que, em geral, ela devia ser mais sóbria, e até mesmo elegante. Além disso, o escritor precisava estar atento a algumas imposições típicas do jornalismo, como o espaço pré-determinado para o texto (3200 toques para a Folha de São Paulo) e o prazo definido para enviá-lo à redação (se atrasar, o jornal não publica).

Mas Scliar diz que foi aprendendo com os jornalistas, e se diz grato a eles. Na Folha, o escritor faz uma ficção declarada, mas que, ao menos, contém um vínculo direto com a realidade (a citação de uma notícia), o que talvez diminua o estranhamento do leitor por não ler verdades no jornal. Seus textos são classificados como contos, gênero que, para o autor, representa a própria origem da ficção – e que também é muito mais difícil de escrever do que um romance, pois não pode dispor de altos e baixos: ou é todo bom ou é todo ruim. E, ao usar o jornal como motivador para criações literárias, o escritor reforça a opinião de que jornalismo e literatura são capazes de se beneficiar da influência mútua. As interações entre as duas áreas continuarão sendo discutidas nas demais mesas-redondas da 28ª Feira do Livro do Sesc/PR.

George Orwell e alguns métodos de apuração

A muito custo, George Orwell conseguiu publicar a sua obra autobiográfica “Na Pior em Paris em Londres” – e, a despeito de seus esforços, o livro esteve longe do sucesso alcançado com “1984” e “A Revolução dos Bichos”. Na época dos fatos narrados, Orwell havia deixado para trás profissões seguras e bons salários para poder se arriscar como escritor, poeta e jornalista – sem muito sucesso. Revoltando-se contra o imperialismo britânico, o escritor já havia feito, algum tempo antes, algumas peregrinações na periferia de Londres, atraído por crenças socialistas. Ao se mudar para Paris, e acabando o seu dinheiro, pôde sentir na pele as dificuldades de uma vida em extrema penúria. Foi sobre essa vida que Orwell escreveu o livro, anos mais tarde classificado como “jornalismo gonzo e publicado pela Companhia das Letras em sua coleção de “Jornalismo Literário”.

George OrwellNa faculdade de jornalismo,  tive que verificar quais foram os seus métodos de apuração e pesquisa – considera-se, portanto, que a obra é jornalística a ponto de contar com tentativas de representações da realidade. Apesar de “Na Pior em Paris e Londres” fugir das noções tradicionais de jornalismo, as ações de Orwell revelam alguns métodos de pesquisa que coincidem com a ação do jornalista convencional. O principal método de apuração de Orwell para a sua obra foi a própria observação dos fatos – embora não se saiba até que ponto eles estejam fielmente representados. Sendo ou não “jornalismo gonzo”, a obra realmente está livre de preocupações excessivas com a objetividade, característica sempre presente no jornalismo tradicional. Isso garante a Orwell uma olhar sobre a realidade que não é necessariamente o mesmo que teria um jornalista que relatasse a mesma história de forma factual. Soma-se a isso o fato de ser um livro autobiográfico e, como tal, tender a revelar apenas o que for da conveniência de seu autor. Apesar da dificuldade em definir a veracidade na sua narrativa, ao longo dela o escritor realmente se valeu de informações colhidas no mundo real.

É a quantidade e a qualidade dos detalhes apresentados por Orwell em boa parte da narrativa que permite sustentar a opinião de que, nesses casos, a sua observação não nasceu de uma imaginação unicamente criadora, mas que efetivamente foi apreendida na vida real.  Logo no começo, o escritor descreve com propriedade os moradores da pensão em que estava hospedado, citando o horário de trabalho de cada um e até quais eram os seus salários – informações que pressupõem uma conversa (ou a observação de uma conversa). São métodos comuns a jornalistas. Da mesma forma, a descrição do serviços e dos empregados do Hotel X é tão detalhada que sugere a participação do autor dentro daquele contexto específico, o que, pela observação ou pelo diálogo, lhe garantia as informações. Naturalmente, não é possível definir até que ponto essas informações eram verídicas. O próprio rigor da apuração é diverso daquele pressuposto para o jornalismo, pois, nesse caso, estava sujeito às intencionalidades do escritor e das suas expectativas diante da própria obra – que para ele não era, necessariamente, jornalística, embora fosse vinculada à uma realidade. Uma reportagem tradicional, ao contrário pretende ser imparcial e relatar apenas o que é passível de comprovação.

Na Pior em Paris e LondresA maior parte da narrativa, feita em primeira pessoa, tem na observação e na conversa a origem de seus dados. Em alguns casos, os personagens citados são a fonte direta das informações, pois Orwell lhes dá voz para que contem as suas próprias histórias. Mas esses não são os únicos métodos de apuração e pesquisa empregados. Em determinado momento, o escritor cita e descreve gírias e palavrões londrinos, relatando, inclusive, a estrutura morfológica de algumas palavras. Percebe-se que, nesse caso, Orwell realizou pesquisas posteriores ao tempo da narração. Elas foram acrescentadas para melhor embasar as opiniões que procurava defender na história, e assim melhor atender aos seus propósitos com a obra. Estão, portanto, relacionadas à uma tentativa de apreensão da realidade, e não de uma criação literária. O autor não deixa claro, no entanto, de onde tirou as informações.

Situação diversa ocorre quando Orwell trata do número de pedintes em Londres. Nesse caso, o escritor mostra claramente que a informação foi obtida conforme os dados do “Conselho do Condado de Londres”. Ou seja, o escritor citou a fonte provavelmente por acreditar que, dessa forma, teria maior credibilidade, uma vez que não se tratava de fato observado, mas de uma estatística oficial.

As opiniões do autor sobre os melhores lugares para um sem-teto dormir em Londres, com as vantagens e desvantagens de cada um, foram obtidas de acordo com a conversa com pessoas que conheciam esses lugares – uma vez que Orwell seguramente não dormiu em todos eles. Mas nota-se que, por mais que esse relato esteja sujeito às interpretações feitas por suas fontes, a narrativa pretende ser uma descrição fiel daquela realidade.

Sabe-se que Orwell também omitiu algumas informações, e alterou outras conforme lhe convinha. A rua da pensão em que morava, por exemplo, tem um nome notadamente inventado – o escritor, por mais que relatasse acontecimentos reais, não queria identificar os personagens de quem tratava. A mesma situação acontece quando cita o “Hotel X”, que, na verdade, se chamava “Hotel Lotti”. Com isso supõe-se que as “denúncias” de Orwell não objetivavam pessoas e lugares específicos, mas buscavam dar conta de um contexto mais amplo e generalizado na sociedade. No entanto, caso tivesse obrigações jornalísticas convencionais, não se esperaria que um repórter alterasse nomes de lugares sem avisar o leitor dos motivos para tal.

Orwell não escreveu essa obra com um objetivo especificamente literário. Sua intenção não era que a leitura causasse prazer estético, por exemplo. Ao contrário, quis citar fatos de uma história que vivenciou e, a partir disso, atingir uma sociedade supostamente bem acomodada e confortável em sua indiferença. Por isso, se detém nas explicações sobre a vida de um plounger em Paris e de um mendigo em Londres, acreditando que o seu público leitor não tem conhecimento dessas situações. Embora se evidencie que o jornalismo gonzo abre mão de algumas das noções mais básicas do jornalismo, nota-se que, no caso dessa obra, existem interesses convergentes já a partir do tema – notadamente de relevância social. O escritor também não abriu mão de métodos de apuração tradicionais, embora fossem sempre filtrados pela sua subjetividade. Sabe-se, no entanto, que isso também acontece no jornalismo factual, mas que é sempre atenuado pelas máscaras da objetividade e imparcialidade.

Lista de escritores brasileiros no Twitter

Garimpando em sites de busca, encontrei os seguintes escritores brasileiros que fazem uso do Twitter:

Antônio Xerxenesky (@xerxenesky) – Escritor e editor

Daniel Galera (@ranchocarne) – Escritor e tradutor literário.

Daniel Pellizzari (@cabrapreta) – Ficcionista, tradutor e editor

Edson Aran (@EdsonAran) – Escritor, jornalista e cartunista

Fábio Fernandes (@fabiofernandes) – Escritor, tradutor, jornalista e blogueiro

Fabrício Carpinejar (@carpinejar) – Poeta, cronista e jornalista.

Ivone C. Benedetti (@ICBenedetti) – Escritora e tradutora

Juremir Machado da Silva (@juremir) – Escritor, jornalista e professor universitário

Marcelino Freire (@MarcelinoFreire) – Escritor de contos.

Marcelo Cassaro (@marcelo_cassaro) – Escritor de ficção científica e roteirista de HQs

Marcelo Moutinho (@mmoutinho) – Escritor e critico

Mayra Dias Gomes (@mayradiasgomes) – Escritora

Millôr Fernandes (@millorfernandes) – Escritor, tradutor, desenhista, humorista.

Paulo Coelho (@paulocoelho) – pretenso escritor

Thalita Rebouças (@thalitareboucas) – Jornalista e escritora para adolescentes

Xico Sá (@xicosa) – Escritor e jornalista

Quem tiver mais nomes, deixe seu recado nos comentários que eu atualizo.

A crônica, segundo Affonso Romano de Sant’Anna

Escritor comenta situação do gênero e sugere que ele pode se desgarrar do jornal

por Henrique Fendrich

A crônica é um gênero singular que geralmente escapa de classificações teóricas. Jornalismo e literatura tentam encaixá-la dentro de seus conceitos, mas nem sempre dão conta de explicar a diversidade de textos que dela fazem parte. À margem do debate acadêmico, a crônica conseguiu se tornar um dos gêneros mais populares no Brasil – a tal ponto que se reivindica para ela um caráter nacional. Ainda existe, no entanto, quem questione a sua capacidade de sobrevivência fora das páginas supostamente efêmeras do jornal.

O Pasquim Cultural tentou flagrar o gênero fora de seus estereótipos e entrevistou Affonso Romano de Sant’Anna, que, entre suas atividades literárias, atualmente é cronista no Estado de Minas e Correio Brasiliense. O escritor estará em Curitiba no dia 09/10 e participará de uma mesa-redonda sobre o gênero, em companhia de Ignácio de Loyola Brandão. A atividade faz parte da programação da 28ª Feira do Livro do Sesc/PR.

Pasquim Cultural: A crônica continua com a missão de suavizar o noticiário convencional? Qual o espaço do gênero na imprensa atual?

Affonso Romano de Sant’Anna: Há vários tipos de crônica. A que visa “suavizar” é um dos tipos. Era assim no passado. Machado dizia que o cronista era um beija-flor. Hoje a crônica é mais do que isto, é também “participante”. Se alguma contribuição dei ao gênero, foi trazê-lo, a partir dos anos 80, para perto da realidade, não o restringindo ao lirismo e ao episódico. O livro “Nós os que matamos Tim Lopes”, sendo seleção de crônicas publicadas nos últimos 20, 30 anos, é, por exemplo, a história da violência no país. Já não tem nada de Rubem Braga, Fernando Sabino ou Drummond. Já “Tempo de delicadeza”, mais recente, é dentro dessa tradição.

PC: Existem características ideais para a crônica? A variedade de estilos entre os cronistas permite que se chegue a uma conclusão sobre o que é a crônica?

ARS: Fernando Sabino contava estórias. Rubem fazia lirismo, Paulo Mendes Campos fazia experiências formais. Posso falar de mim. Eu trabalho de várias formas, para evitar o monoestilo: crônicas sobre episódios do cotidiano, sobre memórias, sobre ideias, sobre política, usando diálogos, narrações, descrições, enfim, intercalando estilos e gêneros diversos, tanto para descansar o leitor (alvo final) quanto para exercitar outros ângulos de visão. Mas ultimamente, por exemplo, tenho tentado reunir as crônicas de acordo com temas. Depois daquele sobre a “violência” e o outro sobre “delicadeza”, estou entregando um livro “Ler o Mundo”, seleção de crônicas sobre a questão da leitura, livros, bibliotecas.

PC: Críticos literários como o Massaud Moisés duvidam da sobrevivência do gênero fora do jornal ou da revista. Como você enxerga a transição das crônicas para o formato do livro?

ARS: Volta e meia recebo livros de crônicas de pessoas que não as publicam em jornal. É como se fossem contos, poemas inéditos. Claro que o jornal a revista são suportes tradicionais, mas hoje a internet está aí. Vai ver que a crônica, no Brasil sobretudo, pode desgarrar-se do jornal.

PC: O gênero conseguiu uma autonomia para isso? A internet possibilita que novos escritores divulguem seus textos com maior facilidade.

ARS: É um dos caminhos novos. Passando no teste da internet, no entanto, o autor quer mesmo é chegar ao livro.

PC: O jornal é lido por pessoas com os mais diversos interesses. Como lidar com a diversidade desse público?

ARS: O cronista tem que saber que não agrada sempre. Tem dia que atende ao público A, depois ao B, depois a C e até ao Y. Não se pode atingir o alvo o tempo todo, mesmo porque o alvo é móvel, e o cronista também.

Crônicas de Affonso Romano de Sant’Anna podem ser acessadas aqui.


Pasquim no Twitter

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