Loucura, Loucura

Hospital  ainda isola os indesejáveis

– O que é isso??? O que é isso???

É um homem quem diz. Mas não prestamos muita atenção. Ele está deitado numa cama típica de hospital. Se mexe de um lado para o outro, tentando se levantar e não consegue. Está amarrado. Faz perguntas e nos observa de olhos virados. Aquele homem é um inconveniente da sociedade. Está em crise de abstinência, e foi preciso medicá-lo e reduzir seus movimentos. Algumas pessoas inconvenientes conseguem ser inconvenientes inclusive numa clínica psquiátrica. Passemos adiante.

O Hospital de Neuropsiquiatria xxx tem 35 anos, e os últimos tempos têm sido uma loucura. Conta com 450 leitos que aceitam todo o tipo de homens indesejáveis, desde que voluntariamente. Isso inclui drogados e alcoólatras, que possuem 350 camas. Há uma ala especial para que não perturbem a sociedade. Nas palavras de quem trabalha lá, é a parte mais pacata do Hospital. Os viciados podem até relaxar numa área destinada ao consumo do tabaco – uma droga que não diz respeito ao Hospital.

Os outros 100 leitos são para os doentes mentais, que ficam separados dos outros. São pessoas com as mais diversas enfermidades psicológicas convivendo no mesmo lugar. O hospital aceita maníacos, depressivos, esquizofrênicos, psicóticos, suicidas em potencial, e até mesmo obesos. Somos alertados de que essa parte do Hospital não é muito agradável para se visitar. As pessoas vêm cumprimentar você. As pessoas querem atenção. E isso é constrangedor.

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Michel Foucault estudou a loucura na Idade Clássica e descobriu que os primeiros loucos a serem isolados da sociedade foram os árabes, no século VII. Quando eles ocuparam a Espanha, séculos mais tarde, o costume se espalhou pela Europa. Mas esses “hospícios” não recuperavam os internos. A intenção era apenas isolá-los das pessoas normais.  O tratamento aos loucos em geral era pior do que aos prisioneiros. Durante a Revolução Francesa, o alienista Philippe Pinel assumiu uma dessas casas, e decidiu acabar com os costumeiros maus-tratos. Começou a tratar os loucos como doentes, e passou a estudar e classificar seus problemas mentais. E formaram-se assim os primeiros “manicômios”.

No Brasil, começou-se a aceitar todo o tipo de indesejáveis nos manicômios, e não apenas os loucos. A exemplo do que acontecia nos primeiros hospícios, os pacientes ficavam ali pra sempre. Em outras palavras, eles não se recuperavam. O Hospital xxx age de forma diversa. Ainda que as enfermeiras afirmem que “transtorno mental não tem cura”, o paciente pode sair de lá depois de 80 dias. Só que alguns loucos retornam. Contraem o que chamam de “hospitalismo”. Não vivem mais sem o hospital. As enfermeiras garantem que há “elevado índice de recuperação” no Hospital, embora só se tenha certeza do índice de altas.

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Os internos fazem suas atividades diárias numa área de 110 mil m². Pela manhã, os viciados fazem a oração da serenidade, admitindo a impotência diante da droga. Depois cantam o Hino Nacional. São eles mesmos os responsáveis pela higiene e pelas atividades cotidianas. Os pacientes formam pequenos grupos e se revezam para cuidar do varal, do corredor, do banheiro, etc. A intenção do Hospital é fazer com que larguem o vício, mas sem sempre é possível. Às vezes é a própria visita que traz drogas escondidas. Para evitar isso, as roupas dos pacientes são revistadas quando eles tomam banho. Alguns pacientes recebem alta e voltam na semana seguinte, com medo dos traficantes.

Para os loucos, as melhores atividades são as festas de aniversário, onde eles podem dançar à vontade, sem se preocupar com o que os outros irão pensar. Também existem gincanas, filmes e atividades culturais. Há uma sala com uma televisão e uma placa alertando que não se deve assistir durante a hora do almoço e após a novela das oito. E dessa forma os pacientes tentam suavizar a sua estadia, em meio a uma ou outra visita familiar.

Mas só essas diversões não bastam quando se é louco. É preciso mais, é preciso conversar sempre que puder, e cumprimentar todas as pessoas, mesmo que elas se recusem. É preciso puxar assunto com qualquer pessoa diferente que aparecer pelos corredores. Falar que hoje à noite voltaremos pra casa, mesmo que seja o nosso primeiro dia. Convidar as pessoas a visitar a nossa família, ainda que não as conheçamos. Dormir no primeiro lugar que encostarmos. Andar com o nariz sujo. Murmurar coisas que ninguém entende, reclamar que não estão tendo mais tantas danças como antigamente. E ouvir das enfermeiras apenas um sorriso de complacência. Afinal, não tem cura. Basta que se diga um “aham”, um “tá bom”, e o louco pára de perturbar as 170 pessoas que trabalham no Hospital. É bom não contrariar, afinal. São avestruzes, que mexem a boca para mostrar que estão falando, mas ninguém ouve som algum, ninguém sabe o que querem realmente, e ninguém quer realmente saber.

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Em 2001 foi aprovado o projeto de lei que propõe a extinção gradual dos manicômios, e a substituição por outros mecanismos de assistência. No Hospital xxx, houve a diminuição do número de leitos. E o que se critica por lá é que não há realmente uma rede de ajuda para solucionar o problema – a psiquiatria é considerada por eles mesmos como “o patinho feio da Saúde”.  O Conselho Federal de Psicologia apresenta dados mostrando que há ao menos 60 mil pessoas internadas em quase 300 manicômios pelo Brasil. A intenção é desinstitucionalizar a loucura, dividindo o problema entre Estado e sociedade. E invocar os direitos humanos para tirá-los do cárcere privado. Enquanto o processo da Reforma Psiquiátrica não se conclui, a sociedade pode dormir tranqüila, sabendo que os indesejáveis estão devidamente isolados do nosso convívio.

Henrique Fendrich

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