A crônica de Eduardo Galeano – Parte 1

Na primeira vez que li “O Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano, lembrei-me imediatamente de Rubem Braga. A associação talvez não seja óbvia, mas nem por isso parece equivocada: se havia um escritor que eu reconhecia o estilo, era o Rubem Braga. O cronista já havia tomado conta de boa parte das minhas horas de literatura, e eu era levado a acreditar nos críticos literários que diziam não haver nada na literatura mundial que se assemelhasse a uma crônica de Rubem Braga – um exagero agradável, e talvez verdadeiro.

Encontrei nesse livro do uruguaio Eduardo Galeano uma característica que, ao menos, lembrava um pouco aquilo que usualmente mais se valoriza no texto de Braga: o “acento lírico” – que nada mais é do que o destaque dado pelo escritor à uma visão poética do mundo, evidenciando trechos e frases de visível emoção. O acento lírico é a principal característica que os críticos literários utilizam para distanciar a crônica do Jornalismo e, assim, melhor aceitá-la entre os gêneros da Literatura.

É certo que essa característica também deve estar presente em outros escritores, inclusive no Brasil. Em Braga, no entanto, ela é entendida como responsável por elevar a crônica ao mais alto nível de Literatura – e não se menciona outro cronista que tenha feito algo semelhante. Eduardo Galeano escreve textos curtos e, além de tudo, também é jornalista. Supostamente (bem supostamente) não existe crônicas no Uruguai (o gênero é visto como algo tupiniquim). Seria possível que, de alguma maneira, os textos se Galeano fossem aproximados do que chamamos de crônica?

Como não sou da área de literatura, não ousarei opinar sobre a classificação literária mais adequada para os textos desse livro – numa rasa análise de leitor, seriam micro-contos.  Existem, no entanto, textos que o próprio autor chama de crônica em seus títulos. Minha intenção é verificar se essa classificação pode ser a crônica brasileira – gênero sobre o qual me debrucei durante todo o último ano da faculdade de Jornalismo.

O gênero é visto de maneiras tão diferentes por Jornalismo e Literatura que convém também avaliar os textos de Galeano sob essas duas perspectivas. Tentarei fazer isso nos próximos posts.

Antes, algumas “crônicas” de Eduardo Galeano:

A Função da Arte

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que
descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas
altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia,
depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a
imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao
pai: — Me ajuda a olhar!

A Fome/2

Um sistema de desvinculo: Boi sozinho se lambe melhor.., O próximo, o
outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo,
um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá de
comer, tampouco dá de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços.

A dignidade da arte

Eu escrevo para os que não podem me ler. Os de baixo, os que esperam
há séculos na fila da história, não sabem ler ou não tem com o quê. Quando chega
o desânimo, me faz bem recordar uma lição de dignidade da arte que recebi há
anos, num teatro de Assis, na Itália. Helena e eu tínhamos ido ver um espetáculo
de pantomima, e não havia ninguém. Ela e eu éramos os únicos espectadores.
Quando a luz se apagou, juntaram-se a nós o lanterninha e a mulher da bilheteria.
E, no entanto, os atores, mais numerosos que o público, trabalharam naquela noite como se estivessem vivendo a glória de uma estréia com lotação esgotada. Fizeram sua tarefa entregando-se inteiros, com tudo, com alma e vida; e foi uma maravilha.
Nossos aplausos ressoaram na solidão da sala. Nós aplaudimos até
esfolar as mãos.

Noite de Natal

Fernando Silva dirige o hospital de crianças, em Manágua. Na véspera do
Natal, ficou trabalhando até muito tarde. Os foguetes esposavam e os fogos de
artifício começavam a iluminar o céu quando Fernando decidiu ir embora. Em casa,
esperavam por ele para festejar.
Fez um último percorrido pelas salas, vendo se tudo ficava em ordem, e
estava nessa quando sentiu que passos o seguiam. Passos de algodão: virou e
descobriu que um dos doentinhos andava atrás dele. Na penumbra, reconheceu-o.
Era um menino que estava sozinho. Fernando reconheceu sua cara marcada pela
morte e aqueles olhos que pediam desculpas ou talvez pedissem licença.
Fernando aproximou-se e o menino roçou-o com a mão: — Diga para… —
sussurrou o menino —. Diga para alguém que eu estou aqui.

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