Possibilidades da Crítica em Enfrentar a Mídia

Uma das impressões que se tem ao ler a obra “A Sociedade Enfrenta a Sua Mídia – Dispositivos Sociais de Crítica Midiática” (Paulus/2006), de José Luiz Braga, é a de que dificilmente certos antagonismos serão capazes de explicar com clareza os processos da mídia. E, de fato, o autor nos mostra que divisões clássicas como “apocalípticos e integrados”, cujo sentido existe desde a Grécia Antiga, passando por “mídia” e “sociedade” e, mais especificamente, a “produção” e “recepção” não são suficientes para que se compreenda as relações midiáticas em sua totalidade. Ao contrário, elas poderiam apenas confortar opiniões. O autor propõe uma perspectiva diversa, que busca interligar esses pólos opostos através da criação de um outro: o sistema de respostas sociais, ou o “sistema de interação social sobre a mídia”.

Através desse sistema, seria possível também avançar no conhecimento da crítica, um dos retornos possíveis. Esse terceiro campo proposto por Braga, indo além da produção e da recepção, abriga as respostas que a sociedade gera depois de receber o que foi produzido. Em suma, aquilo que se conversa sobre o que se consome. As pesquisas, de um modo geral, tendem a se concentrar na produção ou na recepção. Com o sistema de respostas sociais, seria possível unificar essas estruturas, colocando-as em um mesmo patamar de importância e facilitando o estudo das articulações entre eles. Dessas interações, é possível desenvolver o pensamento crítico na sociedade.

Quando a sociedade fala sobre a mídia, ela também seria capaz de fazer a crítica – que, portanto, não se restringe ao ambiente jornalístico ou acadêmico. Uma conversa de bar sobre a mídia, nesse sentido, também seria considerada crítica. A consciência da existência da crítica de sociedade, que não é melhor nem pior que as críticas especializadas, chama a atenção para a influência que ela é capaz de causar para as outras críticas e para os produtos midiáticos.

Também se usa a própria mídia para dar respostas aos seus processos. Braga desmistifica a opinião de que, para se fazer uma crítica da mídia com qualidade, é preciso se distanciar da produção midiática. Agindo dessa maneira, a possibilidade da crítica em produzir efeitos nos usuários daquilo que é criticado se torna muito menor. Os primeiros capítulos do livro são utilizados para situar o leitor dentro da nova perspectiva teórica que o pesquisador propõe, ressaltando as possibilidades que ela abre na própria sociedade – e fornecendo maior conhecimento crítico ao leitor. Braga também enuncia os critérios que lhe servirão de base, e então, na segunda parte do livro, analisa as especificidades de seus objetos empíricos, que, nesse caso, são alguns dispositivos de crítica existentes. São feitas esmiuçadas análises sobre a resposta social encontrada em cartas de leitores, em colunas de ombudsman dos jornais, em críticas jornalísticas de cinema e de televisão, no site “Observatório da Imprensa”, nos livros de Ricardo Noblat “A Arte de Fazer um Jornal Diário”, de Arlindo Machado “A Televisão Levada a Sério” e de Luis Nassif “O Jornalismo nos Anos 90″, além do site “Ética na TV” e nas próprias notícias sobre a mídia.

Com essa gama de dispositivos de crítica midiática (que o autor faz questão de ressaltar que é uma parcela muito reduzida das possibilidades), Braga analisa atentamente os pontos de vistas, as tensões, os objetivos, os procedimentos, os critérios e as interlocuções de cada um, verificando se aquilo a que se propõem enquanto crítica é de fato o que está representado no dispositivo (e pode-ser ver que algumas vezes não é o que acontece). A existência desses dispositivos, a despeito da sua produtividade, já é uma comprovação de que a sociedade enfrenta a sua mídia. Braga constata, além da diversidade de perspectivas nas respostas sociais analisadas, que há uma pluralidade tão grande de mecanismos de enfrentamento que bastaria que aqueles já existentes fossem melhor utilizados para que a sociedade pudesse refletir e aprender mais sobre os processos midiáticos.

Essas reflexões se tornam ainda mais importantes se percebemos os efeitos que uma boa crítica pode causar na sociedade. Um texto crítico que busque orientar mais do que fazer julgamentos pessoais, contribui para que a população entenda os processos daquilo que está sendo criticado e, assim, se torne mais exigente quanto a eles. A crítica da sociedade seria capaz de, a longo prazo, modificar aspectos da própria produção – que, analisando o grau de exigência, tenderia a criar produtos midiáticos mais qualificados. É de grande relevância, portanto, que se busque a crítica da crítica especializada, como Braga faz em seu livro, para que ela não se preocupe apenas em conceituar os produtos como bons ou ruins, nem faça julgamentos meramente impressionistas ou fortemente indignados. A capacidade produtiva nesses casos se torna bastante reduzida, e não se contribui para a aprendizagem da população diante do que está sendo objeto da crítica. Na medida em que se fornece conhecimento “pedagógico”, a crítica é capaz de estimular as próprias percepções de quem a recebe, alimentando o debate e a conseqüente busca pelo aperfeiçoamento. Ao invés de dar respostas definidas, a crítica deve buscar colocar perguntas na cabeça do usuário, estimulando a crítica da sociedade.

Em meio a essas questões que permeiam o seu livro, Braga lembra também que esse sistema de interação sobre a mídia ainda é bastante preliminar no Brasil, em especial no que se refere a crítica de televisão – que corre o risco de ser excessivamente moralista e, portanto, pouco produtiva aos usuários. O estudo da crítica midiática não é importante apenas em termos de conhecimento e de pesquisa. As abordagens de Braga, se levadas em consideração, são capazes de, no mínimo, aperfeiçoar nossa relação com os meios de comunicação. Nesse sentido, os debates sobre a mídia deveriam acontecer em freqüência e profundidade muito maiores do que habitualmente acontece, para então amenizarmos alguns dos reflexos a que fomos levados devido a uma baixa valorização da educação.

Henrique Luiz Fendrich

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